HENRIQUE MEIRELLES

HENRIQUE MEIRELLES

"E uma candidatura Meirelles, o que você acha?", perguntou recentemente o
presidente de uma multinacional a um interlocutor que acompanha os bastidores da
política. O questionamento é um exemplo do interesse e da ansiedade provocados
pelo eventual ingresso de Henrique Meirelles no tabuleiro sucessório. O titular da
Fazenda sabe disso e se aproveita desses ventos.

Claro está que a candidatura de Meirelles demandará um sofisticado trabalho de
engenharia política. Em primeiro lugar, será necessário construir uma imagem pública
para o candidato, que vá além de seu público atual - em especial, as classes C, D e E.

Além disso, um discurso de campanha forte precisará ser elaborado. Por fim, o
estabelecimento de alianças que lhe deem palanques e tempo de televisão e depois
garantam sua governabilidade. Essas tarefas são superpostas, dado o escasso tempo
daqui até as eleições.

Tarefas difíceis, mas que não assustam Meirelles. Nascido no final de agosto de 1945
em Anápolis (GO), a política está em seu DNA. Seu avô foi prefeito de Anápolis por três
vezes e seu pai foi interventor federal em Goiás durante um curto espaço de tempo. O
próprio Meirelles foi um estudante politizado. No colegial, em Goiânia, participou de
movimentos grevistas contra o reajuste dos preços de passagens de ônibus e de
material escolar.

A política também está presente na maturidade. Foi filiado ao PSDB, pelo qual se
elegeu deputado federal em 2002. Também passou pelo PMDB, quando flertou a vicepresidência
da República na chapa encabeçada por Dilma Rousseff em 2010. Desde
2011 integra as fileiras do PSD, partido de Gilberto Kassab. Comandou o Banco Central
durante os dois mandatos de Lula e, desde maio de 2016, é ministro da Fazenda.

Destaca-se, porém, a vida de Meirelles no mundo das finanças. Formado em
engenharia pela Escola Politécnica da USP (1972), logo ingressou no BankBoston.

Nessa instituição, galgou postos até chegar à presidência mundial. Desse período vem
o respeito da comunidade financeira internacional em relação a seu nome. Trata-se de
um importante ativo, inclusive político.

Sua participação no Conselho Administrativo da J & F, holding dos irmãos Batista que
controla diversas empresas, é um problema em sua carreira. Apesar de afirmar que
sua função era tratar da criação do Banco Original (digital), seus adversários
certamente explorarão suas relações com os polêmicos irmãos empresários. A questão
tem potencial explosivo em campanha.

Na eventual disputa pela presidência (e na ainda mais eventual gestão no Planalto),
Meirelles terá como foco principal as reformas estruturais, em especial a
previdenciária e a tributária. No mercado há o temor, no entanto, de que ele ceda aos
políticos e ao eleitorado para garantir sua eleição e sua posterior administração.
Reformas desidratadas não são do interesse dos hoje potenciais apoiadores de
Meirelles.

Outra possibilidade é o ministro da Fazenda entrar como candidato a vice em uma
chapa de centro. Essa hipótese, à princípio interessante, embute um risco - na
condição de condutor "natural" da economia, Meirelles certamente entraria em
conflito com o presidente, com resultados danosos para a política e a economia.

Assim, Henrique Meirelles apresenta-se como um potencial pré-candidato à sucessão
presidencial. Em um cenário fragmentado e incerto, seu nome, hoje, não pode ser
descartado. De imediato, ele precisa melhorar seu desempenho ainda pífio nas
pesquisas de intenção de voto. E ser mais simpático com o mundo parlamentar, que
em geral reclama de sua frieza.

André Pereira César
Cientista Político

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