Uma Dança à Beira do Abismo

O final de semana marcou o início de uma nova etapa na crise. Ao se juntar mais uma vez a manifestantes que defendiam o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, o presidente Jair Bolsonaro partiu em definitivo para o confronto com o establishment político.

Os movimentos de Bolsonaro devem ser analisados de maneira inequívoca. Após sucessivos reveses do governo na Corte Suprema, o presidente reuniu os comandantes das Forças Armadas e, ao lado dos demais militares com cargos no Planalto, pediu a Deus para que não tenha problemas essa semana pois “chegou no limite” nas suas relações com os demais poderes e que, a partir de agora, “não tem mais conversa”. Além disso, ele afirmou que exigirá o cumprimento da Constituição a qualquer preço. Bolsonaro tenta demonstrar ter apoio da caserna para eventuais atos de força que possa dar.

A presença do presidente na manifestação de domingo coroou o script. Ele repetiu o que havia falado aos militares na véspera e seu discurso caiu bem ao gosto do eleitor bolsonarista padrão - um grande “não” ao establishment político, que não o deixa governar e apenas atrapalha o Brasil, apesar da falta de uma efetiva oposição no Congresso Nacional.

Das palavras, Bolsonaro deverá partir para a ação, e aqui existem duas frentes as quais ele poderá explorar. Em primeiro lugar, o presidente sinaliza que insistirá na nomeação de Alexandre Ramagem para o comando da Polícia Federal - não custa lembrar que a suspensão da indicação, pelo STF, foi um dos pivôs da atual crise política.

Além disso, e talvez mais grave, o presidente poderá se decidir pela troca de comando no Exército. O atual comandante da instituição, general Édson Pujol, é crítico das ações do presidente. Ao colocar alguém de sua confiança, Bolsonaro calcula que terá na cúpula das Forças (e também nos escalões inferiores) pessoas de sua extrema confiança. Importante ressaltar que, nos estados, as polícias são uma potente força que tendem a apoiá-lo.

Por sua vez, o mundo judiciário e político segue com suas protocolares “notas de repúdio” às palavras presidenciais. Parece muito pouco, dada a escalada da crise. Congresso Nacional, governadores e lideranças em geral precisam ser mais incisivos, caso queiram conter, de fato, os arroubos do Planalto.

A semana será de forte tensão e, no limite, decisiva. O fato é que o presidente Bolsonaro escolheu iniciar uma dança à beira do abismo. E tomou como parceira toda uma nação.

André Pereira César

Cientista Político

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