Um desenho inicial da CPI da Covid

A instalação da CPI da Covid no Senado Federal representou, até aqui, uma das maiores derrotas para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Além de não conseguir postergar os trabalhos de investigação, o titular do Planalto viu-se no centro de um embate que serviu apenas para desgastar ainda mais sua imagem. Para piorar, o colegiado tem, a princípio, um viés contrário aos interesses presidenciais. Dias de tensão espreitam o governo.

A CPI terá onze senadores titulares e outros sete suplentes, e a distribuição das cadeiras respeitará a proporcionalidade das bancadas e blocos na Casa. Entre os titulares, estima-se que no máximo quatro sejam abertamente governistas - os demais se posicionam entre “independentes” e oposição.

Apesar do prazo de dez dias estipulado para a definição dos integrantes do colegiado, os partidos já se movem para indicar seus representantes. De saída, fica evidenciado o peso político da questão da Covid, pois tradicionais lideranças partidárias externaram o desejo de integrar a CPI.

No âmbito do governismo, o principal nome deverá ser o do senador Ciro Nogueira (PP/PI), presidente nacional de seu partido. As ações em favor do Planalto deverão ser centralizadas nele. Os demais aliados de Bolsonaro seguirão, em tese, as orientações de Nogueira - os senadores Marcos Rogério (DEM/RO), Jorginho Mello (PL/SC) e Eduardo Girão (Podemos/RN) são os mais cotados para integrar esse time. Esse último, por sinal, foi o responsável pela coleta de assinaturas para a “CPI ampliada”. Fidelidade garantida ao governo.

No outro extremo, a oposição terá pelo menos dois titulares de peso – o médico e ex-ministro da Saúde Humberto Costa (PT/PE), parlamentar de larga experiência e respeito entre os pares, e Randolfe Rodrigues (Rede/AP), desafeto de Bolsonaro e autor do requerimento de criação da CPI. Essa frente garantirá bons embates ao longo dos trabalhos.

O fiel da balança, é claro, será o grupo independente - grupo esse que, por ora, tende a atacar as ações do governo no combate à pandemia. Dois deverão ser os expoentes, os senadores Renan Calheiros (MDB/AL) e Tasso Jereissati (PSDB/CE). Decanos e com vasta quilometragem, eles deverão ditar os rumos das investigações. Não por acaso, ambos são cotados para os postos de comando da CPI, a presidência e a relatoria.

Dentre os demais independentes, circulam os nomes de Jáder Barbalho (MDB/PA), Eduardo Braga (MDB/AM), Omar Aziz (PSD/AM) e Otto Alencar (PSD/BA). Todos pesos-pesados do Senado, com condições de dar consistência aos debates.

Enfim, o jogo, de saída, é desfavorável ao Planalto. O leque de temas a ser explorado pelo colegiado é extenso e de potencial explosivo – tratamento precoce, crise no Amazonas, falta de insumos, redução de recursos orçamentários para a Saúde, descaso no processo de aquisição de vacinas, falta de um cronograma de vacinação, erros de logística e o negacionismo generalizado entre membros do governo, devem ser tratados pela CPI.

Ao presidente Bolsonaro será necessária muita habilidade política na tentativa de diminuir o estrago que já está feito. Essa habilidade, até o presente momento, como se vê, está ausente do dia a dia do Planalto.

André Pereira César
Cientista Político

Comments are closed.