Ruídos diplomáticos de Eduardo Bolsonaro

Uma característica do governo Bolsonaro está na mudança de rumos da política externa - desde a posse do atual mandatário, no início de 2019, o Brasil, por conta da mudança dessas diretrizes, vem se envolvendo em atritos com diferentes países, como França, Noruega, Alemanha e o mundo árabe, pelos motivos os mais diversos, entre eles questões comerciais e ambientais.

Agora, a mais recente rusga com a China representa um passo além nesse “estilo”. Ao acusar o Partido Comunista Chinês e o governo daquele país de praticarem espionagem cibernética e defender uma aliança global contra essa prática, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) colocou o Brasil em situação no mínimo embaraçosa. Os custos de sua intencional publicação serão elevados.

Importante ressaltar que, além de filho do presidente da República, o parlamentar comanda a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. Ou seja, não se trata do comentário de um deputado qualquer, mas de alguém que trata diretamente dos interesses internacionais do país no âmbito do Congresso Nacional.

A resposta dura da China indica que a situação não se resolverá de maneira simples e direta. Em nota oficial, o governo chinês acusa o deputado de “uso abusivo do conceito de segurança nacional para caluniar a China e cercear as atividades de empresas chinesas”. A nota lembra ainda que Eduardo Bolsonaro tem “produzido uma série de declarações infames” que atrapalham a cooperação entre os dois países. Ao final, o governo chinês afirma que o Brasil poderá arcar com as consequências negativas do ato do deputado. O recado é muito claro.

Fontes do Itamaraty indicam que se trata, a rigor, da mais séria crise enfrentada pelo atual governo no âmbito da política externa. Não é exagero afirmar que o Brasil chegou muito perto de um rompimento diplomático com o seu principal parceiro comercial, justamente em um momento crítico para a economia brasileira em tempos de pandemia.

No limite, a retórica governista apenas reforça a condição de “pária internacional” do Brasil. Esse quadro parece não incomodar o presidente e seus colaboradores - tanto que, recentemente, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou que, em defesa da liberdade, o Brasil pode ser sim um pária internacional. Sob essa ótica, correções de rumo na política externa brasileira são pouco prováveis.

Tanto que o Ministério das Relações Exteriores saiu em defesa de Eduardo Bolsonaro ao classificar como ofensiva e desrespeitosa a reação chinesa às declarações do deputado. Para Ernesto Araújo, a resposta do governo chinês cria “fricções desnecessárias” e prejudica a boa relação entre os países e que “o tom e conteúdo ofensivo e desrespeitoso da referida declaração prejudica a imagem da China junto à opinião pública brasileira”.

O governo Bolsonaro perdeu seu mais importante aliado, o norte-americano Donald Trump, que deixará a Casa Branca no início do próximo ano. No Brasil, as eleições municipais mostraram que o eleitor, ao votar em partidos de centro, busca um discurso mais moderado. O Planalto, por sua vez, segue caminhando para o isolamento total. Péssima situação para o Brasil.

André Pereira César
Cientista Político

Alvaro Maimoni
Consultor Jurídico

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