Questões da Crise – Os Movimentos de Trump

A partir de hoje e durante os próximos dias, abordaremos questões relevantes que emergiram na esteira da crise gerada a partir da eclosão do novo Coronavírus. Falaremos agora da atuação do presidente norte-americano Donald Trump, de suas políticas e das potenciais consequências de suas ações para o restante do planeta - Brasil incluído.

Inicialmente, Trump tratou a crise gerada pela eclosão do novo Coronavírus como algo menor. Mesmo alertado por assessores já em janeiro dos riscos da doença, ele ignorou seu crescimento e chegou a afirmar que se tratava de uma gripe comum. No limite, ele não percebeu a gravidade da situação e demorou a tomar medidas para proteger a população.

A realidade dos fatos não demorou a bater à porta do presidente norte-americano. O ponto de virada se deu em 11 de março, dia em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) passou a tratar o novo Coronavírus como pandemia. A partir dali, ele adotou medidas de isolamento social e proibição de viagens, entre outras.

Muito tarde. O vírus já estava em território norte-americano e começou a se espalhar com velocidade e fúria. Os números não mentem. O país já é o recordista de infectados e óbitos. No domingo, 12 de abril, registravam-se 555 mil casos, com 22 mil mortes. Nova York é a região mais crítica. A falta de materiais necessários para o combate ao vírus e a ausência de um sistema de saúde gratuito para atendimento da população são fatores que potencializaram a piora do quadro.

Uma primeira consequência da atuação da Casa Branca na crise aparece na política externa. Na disputa por equipamentos de saúde para atender a população, ele se indispôs com outros líderes mundiais, que também demandam esse material. Isso sem falar na relação “morde e assopra” com a China, que chegou a ser acusada pelo presidente americano de ser a responsável pelo surgimento do vírus.

Outro impacto desse quadro se dá na disputa sucessória, prevista para ocorrer no final do ano. Apesar de ainda manter bons índices de aprovação, Trump corre o risco de corroer parcela significativa de seu capital político. É importante lembrar que a crise afeta não somente a saúde da população, mas também a economia - e os pedidos de seguro-desemprego têm crescido muito no país nas últimas semanas. A reeleição ainda é bastante provável, mas um ingrediente de incerteza foi adicionado à disputa com os Democratas.

Por falar em Democratas, a candidatura de Joe Biden certamente ganhará algum estímulo com a crise. O ex-vice-presidente, porém, continua muito discreto em suas falas à população, o que gera críticas de muitos correligionários. Aqui surge a possibilidade, ainda remota, do surgimento de uma candidatura alternativa dentro do partido. O governador de Nova York, Andy Cuomo, tem se destacado no combate ao vírus, mesmo com os números elevados em seu estado. Ele faz um interessante contraponto a Trump.

Uma eventual derrota eleitoral de Trump também seria um baque para as lideranças neopopulistas que se espalharam pelo planeta nos últimos tempos. Figuras como Orbán, da Hungria, e Duterte, das Filipinas, perderiam um norte em quem se espelhar. O futuro dessa onda, nesse cenário, seria incerto.

Por fim, o presidente Jair Bolsonaro também perderia um importante aliado - apesar de muitas idas e vindas nas relações entre os dois, é inegável o realinhamento do Brasil com os Estados Unidos.

Em suma, o presidente norte-americano faz suas apostas, em meio a um jogo bruto. Ele detém a caneta e os recursos para ao menos estancar a crise do novo Coronavírus. Caso tenha êxito, e minimize os impactos na economia, terá enormes chances de vitória. Do contrário, pode ser surpreendido e engolido pelos fatos.

André Pereira César

Cientista Político

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