Pequeno guia para depois do Carnaval

Passados os festejos de Momo, o país retoma suas atividades em momento de forte ebulição. Em diferentes frentes, muitos eventos de relevo ocorrerão nos próximos dias. Não serão apenas as águas que rolarão em março.

Bolsonaro e o 15 de março: o vídeo no qual o presidente Jair Bolsonaro convoca aliados e apoiadores a sair às ruas em sua defesa no próximo dia 15 de março caiu como uma bomba no establishment político. Entre as bandeiras encampadas pelo movimento estão um eventual fechamento do Congresso Nacional e do STF com a participação das Forças Armadas nos atos.

A reação ao presidente foi imediata. Em plena terça-feira de Carnaval, expoentes da vida pública (e adversários políticos entre si), como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador João Dória e o ex-ministro Ciro Gomes, criticaram duramente as colocações do titular do Planalto. Todos avaliam a ação como um ataque à democracia. Porém, a manifestação mais dura veio do ministro Celso de Mello, decano do STF, que em poucas palavras afirmou que o caso revela a face sombria de um presidente que desconhece o valor da ordem constitucional, que Bolsonaro não está à altura do altíssimo cargo que exerce e que o presidente da República, embora possa muito, não pode tudo. Mesmo ex-integrantes do governo, como o general Santos Cruz, demonstraram contrariedade.

Por outro lado, a tropa bolsonarista defende seu líder máximo, em especial nas redes sociais - artifício já observado em outros episódios.

Greve da PM: a mobilização de policiais militares por melhores salários colocou em lados opostos o presidente Bolsonaro e os governadores. O titular do Planalto sinalizou com o apoio aos amotinados no Ceará, posição que desagradou a quase todos os chefes dos Executivos estaduais, que já sofrem com combalida situação fiscal e não têm como arcar com reajustes salariais. Agora, encerrado o Carnaval, as negociações serão retomadas, mas o nível de animosidade é elevado.

Caso Adriano: a morte do miliciano e ex-policial militar Adriano Magalhães da Nóbrega segue cercada de mistério. Ele foi baleado durante ação da PM da Bahia em um município no interior daquele estado. Capitão Adriano, como era conhecido, foi ligado à família Bolsonaro, em especial o senador Flávio, e faria parte do esquema das “rachadinhas” com vencimentos de servidores do gabinete do filho do presidente. O caso está longe de concluído.

Agenda legislativa: é inevitável que todo esse cenário de turbulência desague no Congresso Nacional, com potencial efeito danoso sobre a agenda parlamentar. O embate Executivo-Legislativo representa mais um obstáculo no já tortuoso caminho das reformas. A tributária, por exemplo, segue distante de um consenso mínimo, enquanto outras PECs estão ainda em início de tramitação - a Emergencial, a dos Fundos e a do Pacto Federativo. Isso sem falar na reforma administrativa, que ainda sequer foi encaminhada pelo Executivo ao Congresso.

Outro ponto importante a se ressaltar diz respeito exatamente à animosidade dos parlamentares para com o presidente da República. Ainda é cedo e temerário se afirmar qualquer coisa, mas a atual crise política poderá ter desdobramentos muito sérios.

Coronavírus: em meio a esse quadro confuso, o novo Coronavírus chegou ao Brasil. Um primeiro caso foi detectado em São Paulo e outras pessoas estão sendo avaliadas, com suspeita de terem contraído a doença. Para além do impacto do vírus sobre a economia (brasileira e mundial), fica no ar a dúvida sobre a capacidade dos governos reagirem a uma epidemia. Os governos federal, estaduais e municipais têm realmente condições de enfrentar um surto?

Superterça democrata nos Estados Unidos: na próxima terça-feira, 3 de março, os Democratas realizarão primárias em quatorze estados. Conhecida como “superterça”, a data será decisiva para as pretensões de muitos pré-candidatos. O líder até o momento, senador Bernie Sanders, terá a oportunidade de ampliar ainda mais a vantagem sobre os demais concorrentes.

A grande questão diz respeito à capacidade de Sanders, caso confirmada sua candidatura, conquistar voto junto a setores moderados do eleitorado. Com um discurso mais radical e por vezes se apresentando como “socialista”, o senador poderá ser o adversário dos sonhos para o atual presidente, Donald Trump.

André Pereira César

Cientista Político

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