O mapa político da América do Sul em 2022

A recente vitória de Gustavo Petro na Colômbia, primeiro presidente de esquerda daquele país, reforça a percepção de que uma onda está em curso na América do Sul. O continente é conhecido por seu pêndulo - uma força político-ideológica predomina por um período, sendo a seguir suplantada pelo seu oposto.

Grosso modo, podemos assim distribuir os governos nos países sul-americanos hoje: à esquerda, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Suriname e Guiana; na centro-esquerda, Chile e Argentina; centro-direita, Uruguai e Equador; direita, Paraguai e Brasil. Há nuances e especificidades em cada país, porém. Vejamos alguns exemplos.

Na Colômbia, o recém-eleito Petro terá de trabalhar ao lado de um Parlamento majoritariamente conservador. O ambiente polarizado deu o tom da disputa - vitória apertada sobre o empresário Rodolfo Hernández, de direita. Agora, os desafios do novo presidente serão de monta. Combate à pobreza (o país registra hoje 39% de pobres), enfrentar a inflação (11%) e a informalidade (45%), além do conhecido flagelo colombiano, o narcotráfico. Não será fácil.

O Peru, por sua vez, é um caso sui generis. De esquerda em questões econômicas e políticas, o controverso presidente Pedro Castillo é conservador quando se fala em costumes - contra a legalização do aborto e o enfoque de gênero na educação, reluta em reconhecer os direitos de minorias sexuais. Sua gestão enfrenta problemas desde a posse, em 2021, com frequentes ameaças de impeachment. Aqui, nada de novo - antes dele, seis presidentes do país tiveram problemas com a Justiça, incluindo Alberto Fujimori e Alan Garcia, que cometeu suicídio em meio a um escândalo político envolvendo empreiteiras (uma espécie de Lava Jato peruana). O Peru não é para amadores.

Já a Bolívia assistiu ao processo de retomada do poder pela esquerda com Luis Arce, aliado do ex-presidente Evo Morales, primeiro indígena a comandar o país que deixou o cargo em 2019, após um conturbado processo político - na verdade, uma tentativa de golpe que teria contado inclusive com o apoio do bilionário Elon Musk. Entre os dois, a senadora Jeanine Añez, recentemente condenada por corrupção, presidiu a nação. O atual governo enfrenta o desafio de recuperar a economia e combater a elevada desigualdade após a pandemia. Para isso, ele se aproximou de países como China e Irã, em busca de acordos.

No Chile, o jovem presidente Gabriel Boric, que assumiu em março último, tenta estabelecer uma espécie de “esquerda moderna” (o autodenominado “governo cidadão”), mas a situação não está fácil e, para muitos observadores da cena local, há uma espécie de boicote ao governo. As projeções para a inflação são elevadas, com a maior alta esperada em pelo menos dez anos. O PIB, por seu turno, deverá ter crescimento pífio em 2022 e 2023 (1,5% e 0,5%, respectivamente), o que aumenta a pressão sobre a atual gestão. Choque de realidade após a euforia da vitória. Agora, resta esperar o resultado do referendo da nova Carta, a ser realizado no início de setembro.

O Uruguai tem em Luis Lacalle Pou, eleito em 2019 após quinze anos da esquerda no poder, aquilo que se pode chamar de “direita moderada”. Liberal assumido, ele trabalha para favorecer setores do empresariado e privatizar empresas públicas, ao mesmo tempo que mantém algum diálogo com a esquerda uruguaia. Tentativas de aproximação comercial com outros países, como o Reino Unido, também estão em curso.

E o Brasil? O governo Bolsonaro enfrenta grave crise em diferentes frentes (desemprego, juros e inflação em alta, ruídos na Petrobras e na Amazônia, suspeitas de corrupção, além de problemas de ex-colaboradores com a Justiça) e corre o sério risco de perder a reeleição para o ex-presidente Lula. Assim, não surpreendeu a reação do deputado Eduardo Bolsonaro ao resultado eleitoral na Colômbia - ele compartilhou nas redes sociais um mapa do continente classificando a Argentina como “comunista” e chamando as Ilhas Malvinas de Falklands, entre outras coisas. Ao final, cobra responsabilidade do eleitor brasileiro sobre os destinos não só da nação, mas da região. Sinal de que algo se move.

Como se vê, o “pêndulo” parece estar em movimento no continente, mas a realidade de cada país aponta a existência de um “mosaico”, com diferentes fragmentos compondo quadros específicos.

André Pereira César
Cientista Político

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