O jogo de Bolsonaro – 2

Em artigo publicado nesse espaço na última quarta-feira, 19 de junho, falamos do novo apetite do presidente Jair Bolsonaro, que começou a se movimentar visando o processo sucessório de 2022. No referido texto, abordamos a postura do chefe do Executivo em relação a seus principais ministros e também a governadores aliados.

Essa atual disposição de Bolsonaro ganhou novos elementos nos últimos dias. A percepção de que ele pretende tentar mais quatro anos de mandato aumentou quando, em discurso na cidade paulista de Eldorado, afirmou que “(...) se tiver uma boa reforma política eu posso até, nesse caldeirão, jogar fora a possibilidade de reeleição. Posso jogar fora isso aí. Agora, se não tiver uma boa reforma política e se o povo quiser, estamos aí para continuar mais quatro anos”, e que “lá na frente todos votarão (em mim), tenho certeza disso”.

O rearranjo no primeiro escalão do governo é um desses sinais. A demissão do general Santos Cruz da Secretaria de Governo e sua substituição por outro militar, general Ramos, dá mais segurança política a Bolsonaro, que agora tem alguém de sua plena confiança a seu lado. Cabe lembrar que, apesar da antiga amizade com o presidente, Santos Cruz muitas vezes ia contra as diretrizes de seu chefe.

Ainda no âmbito da rearrumação no Planalto, a perda de poderes da Casa Civil, comandada por Onyx Lorenzoni, também chama a atenção. A pasta, até então central na estrutura do governo, não fará mais a articulação política. O presidente chegou a reconhecer que erros aconteceram na articulação política. Com a medida, Bolsonaro sinaliza que poderá concentrar ainda mais poderes.

Em outra linha de atuação, o presidente voltou a confrontar o Congresso Nacional. Ele afirmou que os parlamentares tentam tirar poder de suas mãos e transformá-lo em uma “rainha da Inglaterra”. A frase cai bem no gosto do eleitor médio de Bolsonaro - aquele que defende a “nova política” contra a “velha política”. O presidente segue reforçando os laços com o núcleo duro de seu eleitorado.

Por sinal, é preciso destacar a presença de Bolsonaro na Marcha para Jesus, ocorrida na quinta-feira, 20 de junho. O evento ocorre desde 1993 e, pela primeira vez, um comandante da Nação compareceu. O presidente sinaliza com isso uma aproximação ainda maior com os evangélicos, um grupo nada desprezível em relação ao total do eleitorado.

Como se vê, o atual titular do Planalto deseja continuar no centro do processo político a partir de 2022. É claro que ele não tem o controle sobre muitos fatores - para citar apenas um, a retomada do crescimento econômico. Mesmo assim, em condições normais, ele tende a ser um importante jogador. O tempo dirá.

André Pereira César

Cientista Político

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