O dia seguinte

Conforme o esperado, as manifestações contra os cortes na educação tomaram conta do Brasil. Em mais de 240 cidades de norte a sul, professores, alunos, pesquisadores e demais profissionais da área saíram às ruas para protestar. Ao governo Bolsonaro restou apenas acompanhar.

Ficou claro que o Planalto não tinha um plano para enfrentar os atos. Para piorar, o presidente Bolsonaro, em nova visita aos Estados Unidos, declarou que a maioria dos manifestantes seria composta por "idiotas úteis" e "imbecis usados como massa de manobra". A verborragia presidencial apenas jogou mais gasolina na fogueira.

Por sinal, a viagem do presidente a Dallas, no Texas, foi marcada por gafes. O prefeito da cidade se recusou a recebê-lo e Bolsonaro foi visitar o ex-presidente George Bush sem avisar. Constrangimento total gerado por absoluta falta de coordenação por parte da equipe do Itamaraty.

Para piorar o quadro, a sabatina do ministro da Educação, Abraham Weintraub, no plenário da Câmara dos Deputados foi terrível para o governo. Tenso, o titular da pasta discutiu com parlamentares. A oposição, em coro, pedia sua demissão. O Centrão, por sua vez, abandonou o ministro e praticamente não se manifestou. Mais uma vez, a base aliada se restringiu ao PSL.

Também em viagem ao Estados Unidos, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM/AP), criticou duramente a falta de articulação política do governo. Segundo ele, as manifestações dos filhos do presidente e as disputas internas são muito ruins para o país e atrapalham o avanço da agenda, inclusive a reforma da Previdência. Recado forte de um, em tese, aliado do Planalto.

Pode-se dizer que a educação simboliza a polarização política no país. Quem está ao lado de Bolsonaro acredita em "doutrinação marxista" e em "balbúrdia". Do outro lado, aqueles que temem o avanço do sucateamento da educação.

Enfim, o governo não foi aprovado em seu primeiro teste. Acuado, se viu abandonado por supostos aliados. O ministro da Educação, por sua vez, demonstrou inabilidade política no momento que mais precisava. A falta de tato do presidente apenas selou o quadro. Um dia para o governo Bolsonaro esquecer.

André Pereira César

Cientista Político

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