O Centrão contra-ataca

Uma das principais consequências do "estilo Bolsonaro" na presidência está sendo o progressivo afastamento do Centrão da base aliada. Mais que distanciamento, as relações entre o Planalto e o bloco, no atual ritmo, podem acabar em confronto aberto.

O imbroglio, como se sabe, teve início já no imediato pós-eleitoral, mas ganhou outra dimensão nos últimos dias, após o presidente divulgar nota via WhatsApp contra o establishment político. Lideranças do Centrão interpretaram a mensagem como um ataque direto ao bloco. A pressão só faz aumentar.

A curto prazo, os resultados disso são evidentes - convocação de ministros, ameaça de perda de validade de medidas provisórias (entre elas a que reestrutura o Executivo) e líderes partidários boicotando reuniões com Bolsonaro. Um desgaste inevitável, dada a conjuntura.

A médio e longo prazos o quadro ainda é mais dramático. A reforma da Previdência muda de "paternidade", passando do Planalto para as mãos do Congresso Nacional. Igualmente a reforma tributária poderá ganhar definitivamente as digitais dos parlamentares. Bolsonaro passaria, assim, de protagonista a um mero coadjuvante do processo.

O Centrão, cabe lembrar, integra parlamentares de centro, centro-direita e direita, e é composto por PP, PR, PRB, Solidariedade e DEM. Por sinal, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM/RJ), é importante interlocutor do grupo, hoje composto por mais de duzentos deputados. Contingente nada desprezível em tempos de votação de matérias impopulares.

Os encaminhamentos para a solução do impasse são muito claros. Basta ao presidente chamar as lideranças ao diálogo direto e colocar as demandas de parte a parte à mesa. Com o tempo correndo, o custo desse procedimento se tornará mais e mais elevado, e a conta ficará nas mãos do Planalto.

Espera-se que, tal como a saga Star Wars, de George Lucas, o contra-ataque do Centrão represente apenas um episódio entre tantos outros. Do contrário, todos podem sair perdendo no final.

André Pereira César

Cientista Político

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