Novos movimentos no xadrez da Lava Jato

A Lava Jato vive tempos de elevada temperatura e de incertezas quanto a seu futuro. Os vazamentos de conversas entre integrantes da operação, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) favorável à tese de que réus delatados devem apresentar alegações finais após os réus delatores e a declaração do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot de que pensou em matar o ministro Gilmar Mendes mudam o quadro geral. Afinal, para onde vai a Lava Jato?

No caso dos vazamentos, fica cada dia mais claro que os responsáveis pela operação se utilizaram, em diversos momentos, de artifícios ilegais para alcançar seus objetivos. Está cada vez mais evidente que essas irregularidades enviesaram o processo. Revelado isso, muito do prestígio da Lava Jato caiu por terra - e alguns dos símbolos das investigações, como o ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, e o procurador Deltan Dallagnol têm seus atos questionados.

No âmbito do STF, a decisão favorável à defesa dos réus não está propriamente ligada à Lava Jato, mas seus efeitos inegavelmente serão sentidos na operação. Processos nos quais réus delatores apresentaram alegações finais simultaneamente aos delatados poderão ser anulados. Com o resultado, a Corte poderá modular a aplicação da decisão - o ministro Alexandre de Moraes, por exemplo, sugere que a medida tenha validade apenas para aqueles que já tenham solicitado a revisão de seus casos. O plenário decidirá isso tão logo o julgamento da ação seja concluído. De todo modo, a medida se soma como mais um revés para a Lava Jato.

Por fim, a bombástica declaração de Rodrigo Janot de que cogitou da possibilidade de matar Gilmar Mendes (e em seguida cometer suicídio) reforça a percepção de que faltava um mínimo de equilíbrio aos condutores da Lava Jato. Em nota divulgada após as declarações de Janot, o ministro Gilmar Mendes recomendou ao ex-procurador “procurar ajuda psiquiátrica”. Ele afirmou ainda que “o combate à corrupção no Brasil (…) tornou-se refém de fanáticos que nunca esconderam que também tinham um projeto de poder”. Mais claro que isso, impossível.

Enfim, a Lava Jato está em uma encruzilhada, justamente no momento mais baixo desde 2014, quando iniciou seus trabalhos. Há quem afirme que a operação vive seus últimos momentos. Essa avaliação pode ser prematura. A verdade, porém, é que a Lava Jato, responsável por uma mudança geral e dramática na cena política brasileira, não será mais a mesma.

André Pereira César

Cientista Político

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