Jogos Perigosos

A onda conservadora segue deixando sua marca em todo o planeta. Agora, por motivos distintos, Brasil, União Europeia e Austrália vivem momentos de efervescência desse quadro.

No Brasil, as manifestações em defesa da educação, ocorridas na última semana, conseguiram ampliar ainda mais a polarização política. Jair Bolsonaro e seus aliados reagiram fortemente aos eventos. Além de criticar os manifestantes, o presidente fez circular texto no qual o establishment político é duramente questionado. A nota dá margem à múltiplas interpretações.

Nota-se aqui que o chamado núcleo original dos apoiadores do presidente adotou um tom mais incisivo em sua defesa, em especial nas redes sociais, mas outros setores que estavam a seu lado, como o mercado e demais grupos organizados, começam a se afastar.

Em resposta a isso, Bolsonaro tomou decisão extremamente arriscada: convocar a população a sair às ruas em sua defesa, no próximo domingo. A movimentação do titular do Planalto lembra a de Collor que, no auge da crise de seu governo, clamou para que os brasileiros saíssem de verde e amarelo e o defendessem. O resultado foi o contrário. De preto, multidões deram início, na prática, ao processo que culminou no afastamento do presidente.

A União Europeia também vive seu momento de ebulição. As eleições nos 28 países integrantes da UE, que ocorrerão entre quinta-feira (23) e domingo (26) próximos, deverão marcar crescimento inédito da extrema-direita. Em questão, a vitalidade do bloco e dos valores por ele defendidos, como direitos humanos, meio ambiente e o fortalecimento da democracia. As pesquisas indicam que os progressistas manterão a maioria das cadeiras no Parlamento Europeu, mas os populistas ganharão espaço e dificultarão o encaminhamento da agenda tradicional do bloco. Muitos desses votos da extrema-direita virão da Itália (Matteo Salvini), da Hungria (Viktor Orbán) e da França (Marine Le PEN).

Por último, as eleições australianas tiveram resultado surpreendente e atestaram a força das ideias conservadoras. O premiê Schott Morrison, tido como perdedor segundo todas as pesquisas, conseguiu se reeleger. Sua vitória deveu-se, em larga medida, a votos obtidos junto ao eleitorado suburbano e a grupos ligados à economia tradicional, como a exploração do carvão. O debate pró-meio ambiente perdeu.

Em suma, os conservadores seguem protagonizando a cena política mundial. No caso brasileiro, a atual crise enfrentada pelo governo Bolsonaro teria como solução extrema sua substituição pelo vice Mourão, e com ele os militares, em definitivo. Nesse caso, o conservadorismo apenas mudaria de configuração.

Como se vê, a democracia global segue praticando jogos perigosos.

André Pereira César

Cientista Político

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