Governo x Governo

Chama a atenção de todos o recente ruído oriundo do Planalto. Duas alas governistas têm se desentendido e, dadas as circunstâncias, consequências políticas em decorrência do fato podem ocorrer. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) segue acompanhando a questão - bem a seu modo, não se esforçando para pacificar o ambiente.

De um lado, a chamada “ala ideológica” se movimenta no sentido de ganhar mais espaço, em detrimento dos militares, tidos até então como uma espécie de barreira de contenção para os arroubos presidenciais.

A recente rusga entre o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, expôs uma briga que já contaminava os corredores do Planalto. Tentando baixar a fervura, no domingo, 25 de outubro, Salles se desculpou, afirmando ter cometido “excessos” no tratamento dispensado ao colega. Tarde demais, o estrago está feito.

A questão entre as duas alas tem alguns pontos a serem destacados. Ramos, por seu estilo mais duro, estaria desagradando muitos aliados por dificultar a liberação de emendas. Mas não é apenas isso. Recentemente, o próprio Bolsonaro desautorizou o titular da Saúde, Eduardo Pazuello, no que diz respeito à utilização de vacinas contra a Covid 19. A bronca pública gerou mal estar, mas foi aplaudida pelos ideológicos.

Outro ponto a se ressaltar é a disputa pela vaga de vice na chapa de Bolsonaro em 2022. O presidente não morre de amores pelo atual ocupante do posto, general Hamilton Mourão, e já se cogita de sua substituição no próximo pleito. Aqui, ganha força a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, um peso pesado na ala ideológica. Seu nome tem o respaldo de boa parte do eleitorado bolsonarista mais fiel.

Por fim, outros atores se posicionam frente ao problema. O neo-aliado Centrão assume uma posição conciliadora, afirmando seu respeito por Ramos. Já os presidentes das duas Casas Legislativas, Rodrigo Maia (DEM/RJ) e Davi Alcolumbre (DEM/AP), partiram para cima de Salles na defesa de Ramos. De fato, a situação não contribui para o avanço da agenda parlamentar, focada na grave crise atual.

A disputa interna representa um obstáculo extra para o enfrentamento da pandemia e suas consequências. A cada dia que passa, o Brasil vê reforçada sua condição de pária no cenário mundial e se mostra incapaz de resolver as questões prementes. O custo dessa situação aumenta a cada dia.

André Pereira César
Cientista Político

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