Governo Bolsonaro: depois da reforma ministerial

Confirmadas as mudanças no primeiro escalão do governo, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) inicia uma nova etapa em sua administração. Com a hegemonia do Centrão e os militares perdendo espaço, o foco agora será a sucessão presidencial. Por ora, o titular do Planalto está blindado contra o impeachment. Por ora.

O novo comandante da Casa Civil, senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, é habilidoso operador da política no Congresso Nacional. Mais que isso, controla boa parte do Centrão, hoje o mais importante grupo de sustentação do presidente Bolsonaro. Com o aumento da pressão sobre o Planalto, via CPI da Covid, e a queda da popularidade, Nogueira tem, em tese, as credenciais para ao menos estancar a safra de notícias ruins para governo.

As missões estão dadas. A principal, reforçar os laços com o Parlamento, em especial com o Senado Federal - Nogueira é o primeiro senador a assumir um ministério na atual gestão. Além disso, ganhar espaço junto a setores hoje distantes do governo. Falamos aqui do eleitorado das regiões Norte e Nordeste, mais sintonizada com o discurso do ex-presidente Lula (PT).

Uma questão imediata diz respeito ao modo que se deu a mudança ministerial. O até então titular, general Ramos, foi informado pela imprensa sobre sua demissão. Defensores da hierarquia e da lealdade, os militares aceitarão pacificamente a situação?

Além disso, o recém-recriado ministério do Emprego e Previdência, versão atualizada do Trabalho, ficará nas mãos do fiel aliado Onyx Lorenzoni (DEM/RS). Aqui, surgem duas perguntas: como se comportará o neoaliado PTB, historicamente ligado à pasta? E como fica o ministro da Economia, Paulo Guedes, assistindo ao desmembramento de seu ministério?

Por fim, a sensação entre as lideranças do Centrão é a de que o novo ministro da Casa Civil terá limitados instrumentos em mãos para mudar o quadro geral. Como se sabe, o bloco está longe de ser um monolito e, no limite, o sobrepeso de um partido (no caso, o PP) pode causar efeitos colaterais inesperados.

Na política, é comum questionar a decisão de se nomear um ministro de muito peso, aquele cuja eventual demissão gera ruídos. Sérgio Moro tinha esse perfil, mas, afastado da pasta da Justiça, sua não vinculação a partidos conteve os danos. Com Nogueira, o quadro é outro. Um eventual rompimento do novo ministro com o Planalto certamente terá impacto negativo e, no limite, colocará o governo Bolsonaro em xeque. O risco foi assumido pelo presidente da República.

André Pereira César
Cientista Político

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