Em estado de Beligerância

“Nós não queremos negociar nada. Nós queremos é ação pelo Brasil. O que tinha de velho ficou para trás. Nós temos um novo Brasil pela frente (...). Acabou a época da patifaria. É agora o povo no poder”.

Com essas palavras, o presidente Jair Bolsonaro participou, na tarde de domingo, 19 de abril, de manifestação popular em defesa de intervenção militar e do fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal.

As declarações do titular do Planalto, de forte caráter chavista, agradaram a seu eleitorado típico, mas caíram como uma bomba junto ao establishment político. Governadores, parlamentares e integrantes do Judiciário passaram o dia trocando impressões sobre o caso. Em comum, o repúdio ao ato e ao discurso presidenciais. A conclusão é de que algo precisa ser feito.

Pior, setores moderados do exército que ainda tinham certa simpatia pelo presidente sentiram-se colocados em uma saia justa - a manifestação se deu justamente no Dia do Exército e em frente ao Quartel General do Exército. Afinal, as Forças Armadas defendem a manutenção do status quo e não deseja se envolver em possíveis conspirações.

Na prática, o presidente reforçou sua posição de desdém pelas instituições e, na contramão, tornou ainda mais claros seus laços com o “povo”. Em meio à crise gerada pelo novo Coronavírus e com a debacle econômica já no horizonte, Bolsonaro busca um escudo para se proteger durante o restante de seu mandato. Escudo esse, porém, extremamente frágil e com limitada capacidade de articulação.

Quem ganha de imediato com a inusitada situação criada pelo presidente? O comandante da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ), que começava a ver sua liderança questionada por alguns partidos do chamado “centrão”. Difícil imaginar, hoje, agremiações como o PL, o PSD ou o PP se sentando à mesa para negociar com o Planalto.

O dia terminou com Bolsonaro transmitindo em suas redes sociais, uma live onde o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB), condenado por corrupção, acusa o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ), de articular um golpe parlamentarista. No jargão popular, “chamou para a briga”.

O fato é que Bolsonaro mostra-se mais e mais uma mistura de Hugo Chavez, Jânio Quadros e Fernando Collor - com o pior de cada um deles nesse caldeirão antidemocrático. Seu isolamento é cada vez maior. Os eventos do último domingo apenas fizeram a crise subir três degraus de uma só vez.

André Pereira César

Cientista Político

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