Em busca do equilíbrio perdido – Um projeto de poder

No dia em que o Comitê Olímpico Internacional, em decisão histórica, adia as olimpiadas de Tóquio para 2021, em decorrência do COVID-19, o presidente Jair Bolsonaro, ao falar para os brasileiros em cadeia nacional na noite de terça-feira, 24 de março, dobrou a aposta na polarização política. Sem citar nomes, ele atacou diferentes desafetos - a Rede Globo e a imprensa em geral, o médico Drauzio Varella, governadores e secretários de saúde. O fato é que o titular do Planalto se desnudou, tirou o véu e mostrou a cara.

Em linhas gerais, Bolsonaro criticou as duras medidas até aqui adotadas por estados e municípios na tentativa de conter o avanço do vírus. Ele chamou de “histeria” o isolamento social e qualificou como desnecessário o fechamento de escolas porque esse vírus só “mata idosos”. A fala teve o respaldo do núcleo ideológico do governo e teria sido, ainda, acordada com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

O posicionamento do presidente da República vai na contramão do que vem sendo sugerido por instituições como a Organização Mundial de Saúde e aplicado na quase totalidade dos países - até mesmo nos Estados Unidos do neo-aliado Donald Trump. Bolsonaro, ao agir dessa maneira, corre o risco de perder o bonde da história.

Importante notar aqui que o instituto Datafolha, em recente pesquisa, mostra que a população tem confiado mais nas decisões tomadas por governadores do que as adotadas pelo presidente no que diz respeito ao enfrentamento dessa crise sanitária. Segundo o levantamento, 35% dos brasileiros consideram ótimo ou bom o desempenho de Bolsonaro. Entre os governadores, esse índice sobe a 54%, na média.

A imediata reação de diversas autoridades como os presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e do Senado Federal, Davi Alcolumbre, dos governadores dos Estados, de líderes partidários, de ministros do Supremo Tribunal Federal, da OAB, dos secretários estaduais de Saúde e de diversas personalidades, dá o tom do que virá a partir de agora. Pontes foram queimadas - talvez as últimas capazes de conter o esgarçamento político e social vigentes no país.

Em resumo, o presidente falou basicamente para seu eleitorado, que, mais uma vez, deverá apoiá-lo por seus atos e gestos. Caso a crise gerada pelo novo Coronavírus reflua, ele poderá sair politicamente fortalecido. Do contrário, o cenário de debacle de seu governo estará desenhado. Essa, por ora, é a maior possibilidade.

André Pereira César

Cientista Político

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