CPI da Covid: impressões gerais sobre a sessão de instalação

. Os debates ocorridos ao longo da sessão não deixam dúvidas quanto à divisão de forças no colegiado. Entre os titulares, são sete os senadores de oposição e quatro alinhados ao Planalto.

. Conforme o esperado, os governistas, mesmo em minoria, lançaram mão de todos os recursos regimentais disponíveis para postergar o início efetivo dos trabalhos. As questões de ordem apresentadas pelos senadores Ciro Nogueira (PP/PI), Eduardo Girão (Podemos/CE), Jorginho Mello (PL/SC) e Marcos Rogério (DEM/RO), porém, foram rapidamente derrubadas.

. Os partidos de oposição atuaram de maneira coordenada. Sob a liderança de Eduardo Braga (MDB/AM) e Humberto Costa (PT/PE), com um discurso único, o grupo defendeu a CPI e a necessidade das investigações alcançarem os culpados pelo quadro de calamidade na saúde pública, em função da COVID-19.

. Dada a importância da CPI, lideranças partidárias sem assento no colegiado marcaram posição na sessão de abertura. Pediram a palavra o líder do governo na Casa, Fernando Bezerra Coelho (MDB/PE), Rogério Carvalho (PT/SE) e Izalci Lucas (PSDB/DF).

. Chamou a atenção, no entanto, a participação do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos/RJ). Em sua fala, ele oscilou entre a ironia e o ataque direto aos objetivos do colegiado, questionando a indicação do senador Renan Calheiros (MDB/AL) para o posto de relator. Ele ouviu respostas duras de seus pares e se retirou da sala.

. Calheiros, por sinal, teve confirmada a indicação para a relatoria. Em seu discurso inicial, ele foi duro e sinalizou que não poupará esforços para aprofundar ao máximo as investigações. Má notícia para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que tem no senador alagoano um de seus maiores desafetos.

. A votação para presidente confirmou a escolha de Omar Aziz (PSD/AM). Ele recebeu oito votos, contra três do governista Eduardo Girão. O vice será Randolfe Rodrigues (Rede/AP), autor do requerimento de criação da CPI.

. A surpresa na definição do presidente deu-se no voto do senador Ciro Nogueira. Aliado de Bolsonaro, presidente do PP e um dos principais líderes do Centrão, ele votou no oposicionista Aziz. Esse movimento pode significar que o parlamentar, com vasta experiência e pragmático por natureza, busca um canal de negociação com a oposição, em maioria na CPI. No limite, para conter os possíveis danos ao governo.

. Até o momento, foram protocolados 173 requerimentos - convocações e convites para comparecer a CPI, realização de audiências públicas e solicitação de encaminhamento de documentos.

. A próxima sessão da CPI ocorrerá na quinta-feira, 29 de abril, no período da manhã. Em caráter semipresencial, os parlamentares apreciarão o plano de trabalhos do colegiado.

PS. O ministro da Economia, Paulo Guedes, agrava ainda mais o seu inferno astral. Ele perdeu, no mesmo dia, dois colaboradores - Vanessa Canado, assessora para a reforma tributária, e Waldery Rodrigues, secretário de Fazenda. Os dois se somam a muitos outros que deixaram a equipe econômica desde o início do governo. Para piorar, Guedes entrou em polêmica ao criticar a China e suas vacinas. O antigo “Posto Ipiranga” fica menor a cada dia que passa.

André Pereira César
Cientista Político

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