A sucessão antecipada de Rodrigo Maia na Câmara dos Deputados

Passadas as eleições municipais, as atenções se voltarão, em definitivo, para a definição das novas Mesas Diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Em especial, a disputa entre os deputados é politicamente delicada, pois o resultado final definirá os rumos de governo e oposição nos próximos dois anos, com impacto direto na sucessão presidencial de 2022. Incerteza é o atual nome do jogo.

Desse modo, faz todo sentido a intensa movimentação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM/RJ), no momento o maior protagonista do processo. Crítico do governo Bolsonaro (sem partido), ele tem em mente dois caminhos - conseguir, por vias legais, se candidatar a mais uma reeleição; caso isso não seja possível, ditar os rumos e colocar nos postos de comando, a partir de fevereiro 2021, aliados de extrema confiança.

No plano puramente político, Maia já demarcou posição. Ele tem seis nomes de potenciais sucessores que poderá apoiar na disputa. São eles Baleia Rossi (MDB/SP), Aguinaldo Ribeiro (PP/PB), Marcelo Ramos (PL/AM), Elmar Nascimento (DEM/BA), Marcos Pereira (Republicanos/SP) e Luciano Bivar (PSL/PE). Cada um deles tem seus ativos políticos e seus pontos fracos, mas todos têm um elemento em comum - são adversários do líder do Centrão, Arthur Lira (PP/ AL), hoje o preferido do Planalto. No entanto, há fortes rumores de que o atual ministro das Comunicações Fábio Faria (PSD/RN) poderia vir a ser o escolhido pelo governo. Esse movimento, porém, deverá ser muito bem avaliado, porque o abandono de Lira no meio do caminho poderá criar um novo e poderoso inimigo para o governo.

Importante notar que os dois campos se movimentam já há um bom tempo em busca de apoio e, consequentemente, votos, para chegarem à presidência da Casa. Ambos buscam em especial negociar com os partidos de esquerda - eles são fundamentais e, no limite, podem se tornar o fiel da balança na disputa.

A aceleração do processo explica a mais recente mobilização de Maia e seu grupo. Eles pretendem definir um nome de consenso, entre os seis atuais postulantes, até 10 de dezembro. A partir dessa data, em tese, o embate ganhará definitivamente as ruas, corredores e gabinetes.

Dois pontos devem ser ressaltados. Em primeiro lugar, um nome alternativo, hoje fora do radar, pode surgir entre os apoiadores de Maia. Além disso, uma decisão do Supremo Tribunal Federal em favor da recondução do atual titular do posto, em tese, simplificaria o quadro - nesse caso, Maia seria quase um “candidato natural” a mais dois anos no comando dos trabalhos da Câmara.

Enfim, a partida está apenas começando. É certo que o lançamento muito antecipado de uma candidatura exporá o postulante a todo tipo de ataques e denúncias. De todo modo, trata-se de uma estratégia que, ao chamar diversos grupos para negociar, visa minar ao máximo o terreno do adversário. As chances de êxito de Maia e aliados são reais.

André Pereira César

Cientista Político

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