2020, modo de usar: POLÍTICA

A exemplo de 2019, o ano que se inicia será marcado pelo embate entre os extremos - no caso, o presidente Jair Bolsonaro e seus aliados contra a oposição de esquerda, capitaneada pelo PT. Polarização continuará a ser o nome do jogo.

Do lado governista, o começo de 2020 já dá mostras do que está por vir. As denúncias contra o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Fábio Wajngarten, acusado de receber dinheiro de emissoras de TV e de agências de publicidade, colocam na berlinda mais um nome importante do governo. Situação já vista em diferentes ocasiões no primeiro ano da gestão Bolsonaro.

Também o caso do então secretário de Cultura, Roberto Alvim, que gravou vídeo emulando o ministro da Propaganda nazista Joseph Goebbels, gerou ruídos dentro e fora do Planalto. Aliados e opositores do presidente se uniram e pediram sua demissão, o que acabou ocorrendo. No entanto, o estrago estava feito e ficaram no ar, mais uma vez, dúvidas sobre o real comprometimento da atual administração com a democracia. O imbróglio ainda terá consequências.

Por fim, os erros do Enem, que colocam em risco as vagas de milhares de novos universitários, trazem novamente à tona pesadas críticas ao ministro da Educação, Abraham Weintraub. Nesse caso específico, o governo não tem a quem culpar e arcará com o ônus do ocorrido. A cabeça do titular da pasta estará a prêmio.

No campo da oposição, a ordem é atacar em três frentes distintas - a política liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes, a incompetência da atual administração e a suposta corrupção no governo. Dado o processo eleitoral do segundo semestre, o discurso oposicionista deverá ser ainda mais estridente e consistente do que o visto no ano passado.

No entanto, os adversários de Bolsonaro têm dois grandes nós a desatar. Em primeiro lugar, falta um projeto orgânico que se contraponha ao do atual grupo no poder. Além disso, não existe unidade no campo da esquerda - o PT e Lula seguem hegemônicos, porém fortemente questionados por agremiações como o PDT e o PSB. Essa fragmentação só interessa ao presidente Bolsonaro.

E como fica o centro nesse quadro geral? Apesar do peso político e de ter nomes fortes como o do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ), falta organicidade e um discurso que atenda aos anseios do eleitor médio. Nomes estão sendo explorados (Luciano Huck, por exemplo), mas os movimentos do centro ainda são tímidos. Sem uma pegada mais contundente, o grupo jamais recuperará o protagonismo político.

Enfim, o jogo recomeça agora. O novo ano será decisivo para as pretensões dos potenciais grupos e candidatos à sucessão presidencial de 2022. Por ora, e apesar das muitas crises gestadas no próprio Planalto, o presidente Bolsonaro segue na frente.

André Pereira César
Cientista Político

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