2020, modo de usar: ELEIÇÕES MUNICIPAIS

Entre os eventos políticos de relevo previstos para 2020, as eleições municipais, no segundo semestre, terão grande destaque. Historicamente, esse pleito sempre teve importância para a configuração de forças para as eleições gerais, que ocorrem dois anos depois.

Agora, porém, esse valor será dobrado - grupos e movimentos que surgiram na esteira das manifestações de junho de 2013 e ganharam espaço no processo eleitoral de 2018 serão postos a prova. Igualmente, lideranças políticas terão suas influências testadas. A importância das eleições de 2020 só pode ser comparada à de 1988, quando novos atores ocuparam espaço - basta lembrar da vitória do PT naquele ano em São Paulo, com Luiza Erundina, que colocou o partido no rol das grandes agremiações.

Outro elemento que predomina hoje no cenário geral é a incerteza. O quadro político fragmentado tem potencial para pulverizar a distribuição de prefeituras a serem conquistadas pelos partidos, com a possibilidade da ocorrência de muitos resultados imprevisíveis.

A capital paulista é um exemplo dessas incertezas. O atual prefeito, Bruno Covas (PSDB), é candidato natural à reeleição, mas sua saúde pode impedi-lo de disputar o pleito. Mais ainda, mesmo que ele dispute, o nome de seu vice terá peso junto ao eleitorado, por razões óbvias. Outros nomes serão competitivos, caso entrem na eleição - o ex-governador Márcio França (PSB), a deputada Joice Hasselmann (PSL) e o apresentador de TV José Luiz Datena, esse último um eterno pré-candidato. O PT, por sua vez, parece longe da definição de seu representante. Lideranças do partido chegaram a aventar a possibilidade de se reaproximarem de Marta Suplicy, hoje no MDB. As chances disso ocorrer, porém, são remotas. Por fim, o candidato do presidente Bolsonaro ainda é uma incógnita.

O Rio de Janeiro é outro exemplo do quadro de incertezas. A caótica gestão de Marcelo Crivella (Republicanos) praticamente inviabiliza sua reeleição. Sobra espaço então para nomes como o do ex-prefeito Eduardo Paes (MDB) e do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL). A exemplo de São Paulo, o PT ainda parece longe da definição de seu candidato e o presidente Bolsonaro também não definiu seu representante - por sinal, o Rio de Janeiro é a base eleitoral do presidente, e a vitória de alguém por ele apoiado teria grande valor simbólico.

Será importante acompanhar com atenção os comportamentos do eleitorado bolsonarista e do eleitorado lavajatista. Inicialmente um grupo único, eles têm se dividido em função dos recentes e crescentes atritos entre o titular do Planalto e o ministro da Justiça e Segurança Pública. Uma divisão maior nesse campo poderá gerar importantes efeitos no quadro político geral.

Também novos movimentos, surgidos a partir de 2013, serão testados. Falamos aqui de grupos como o MBL e o RenovaBR, que têm colocado em xeque a representatividade dos partidos tradicionais. Terão eles fôlego para manter essa toada e se consolidar na cena política?

Por fim, duas lideranças em especial serão postas à prova. O presidente Bolsonaro, às voltas com a criação de seu novo partido, o Aliança pelo Brasil, terá seu apoio cobrado por aliados em todo o Brasil. Um desempenho eleitoral ruim desse contingente certamente afetará a imagem do presidente e o processo sucessório de 2022.

Igualmente o ex-presidente Lula enfrentará uma prova de fogo. Ainda o principal nome do PT, ele precisará mostrar que mantém as rédeas sobre seus aliados e, ao mesmo tempo, ajudar seus candidatos a ganhar votos para manter a legenda competitiva em nível nacional. Não será tarefa trivial.

Enfim, as eleições municipais desse ano serão de extrema importância para os destinos imediatos da Nação. As questões locais, é claro, estarão em debate, mas os grandes temas nacionais também mostrarão sua cara.

André Pereira César

Cientista Político

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