2020, modo de usar: ECONOMIA

O principal desafio a ser enfrentado pelo governo Bolsonaro é a economia. Ao longo de 2019, foram emitidos tímidos sinais de recuperação, mas é necessário muito mais. Decorridos mais de um ano do início dos trabalhos, o ministro da Economia, Paulo Guedes, ainda não conseguiu justificar a alcunha de “Posto Ipiranga”.

De positivo, pode-se afirmar que o país não entrou em colapso. Só que esse crédito deve-se mais a postura de “independência” do Parlamento do que propriamente da atual equipe econômica. A inflação manteve-se dentro dos patamares aceitáveis e, mais ainda, os juros no degrau mais baixo da história geram a expectativa de retomada dos investimentos por parte do setor produtivo. Um leve otimismo orbita nessa seara.

Também pode-se destacar o fato de que, em 2019, foram criados mais de 644 mil empregos formais, melhor resultado desde 2013. A equipe econômica estima que, com o PIB avançando para incríveis 3% em 2020, o número de novas vagas formais pode chegar a um milhão. Deve-se aguardar antes de se comemorar.

Aí saltam as más notícias. Em 2013, foram mais de 1,1 milhão de novas vagas formais criadas, quase o dobro de 2019. Ou seja, o país ainda corre atrás do tempo perdido. Além disso, os 3% de crescimento do PIB estão muito acima das projeções oficiais, de até 2,4%.

Por fim, o desemprego segue em alta. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil encerrou 2019 com uma taxa de 12,1%. Para o ano corrente, a perspectiva é de queda marginal, para 12%. A esses indicadores se soma o fato de que muitos brasileiros trabalham em condições de extrema precariedade, no mercado informal ou “uberizando” suas atividades profissionais. O horizonte, no curto prazo, mostra-se portanto muito mais sombrio e bem menos ensolarado do que o prometido pelo governo de Bolsonaro.

Ainda, nesse cenário, dois eventos devem ser observados ao longo do ano: a evolução da guerra comercial EUA-China, que ainda pode ter desdobramentos negativos em especial para o agronegócio do Brasil; e a crise EUA-Irã, que pode gerar um novo “choque do petróleo”, com consequências extremamente danosas para a economia mundial - Brasil inclusive.

Por fim, chama a atenção o “racha” na FIESP-Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. A entidade que representa a indústria do principal estado brasileiro está dividida em dois grupos antagônicos. De um lado o presidente Paulo Skaf alinhado politicamente ao governo de Jair Bolsonaro. De outro, parte do empresariado que teme a indistinta abertura de mercado que poderá quebrar o já cambaleante setor industrial brasileiro. Com essa cisão, para muitos a FIESP não consegue defender a contento os interesses do setor. Quadro terrível quando se pensa na abertura da economia e grandes grupos entrando mais e mais no país.

Para concluir, é importante lembrar que, para o cidadão comum, o mais importante é emprego e dinheiro no bolso. Esse ponto tem forte impacto eleitoral. A sucessão presidencial ainda está distante, mas sem a recuperação efetiva da economia, o ministro Guedes será duramente questionado. E, com ele, o próprio presidente Bolsonaro.

André Pereira César

Cientista Político

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