Eles vão votar porque querem mudanças

Jovens eleitores falam sobre a importância do voto para eles

Vinícius, 16 anos, André, 16, e Gabriel, 17, estão na contramão das estatísticas eleitorais. Os três estudantes estão entre os 21% de jovens entre 16 e 17 anos que tiraram título de eleitor para votar nas eleições para presidente, governador, senadores, além dos deputados federais e estaduais. Para os 6.489.062 de pessoas que têm entre 16 e 17 anos, de acordo com a Projeção de População, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o voto é facultativo. Deste total, 1,4 milhão tiraram o título de eleitor e estão aptos a votar, segundo estatísticas do eleitorado, divulgadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Vinícius Correia diz que sempre quis votar. “Se eu voto, posso exigir dos governantes aquilo que eu considero ser o melhor para o futuro do meu país. A gente precisa cobrar do governante o cumprimento daquilo que ele prometeu”, destaca. Para ele, os investimentos em saúde, educação e segurança devem ser a grande prioridade dos candidatos aos cargos públicos na eleição do próximo dia 7 de outubro.

“Eu tenho plano de saúde, mas convivo com pessoas que não têm e sei o quanto faz falta para nós brasileiros um serviço público de qualidade”, ressalta o jovem que sonha em empreender, a exemplo do pai. “Ele tem uma oficina mecânica, vejo sempre ele falando sobre a quantidade de impostos que precisa pagar”, destaca Vinícius.

Candidato ele ainda não tem, mas já sabe qual será o perfil do escolhido. “Não pode ser racista”, avisa ele, que busca se informar sobre política, mas reconhece que a postura não é a mais recorrente entre os amigos e colegas. “A gente conversa sobre o assunto, na escola o assunto aparece nas aulas de Sociologia e Geografia, mas nem todo mundo se interessa”, diz.

Cidadania

Gabriel Andrade define o exercício da cidadania como “fundamental”. O gosto pelo assunto surgiu na sala de aula. “A maioria dos meus colegas tem o título de eleitor e vai votar”, conta. Por que tanto interesse? A escola estimulou, diz.

Corrupção é a característica incompatível com os candidatos em quem Gabriel pretende votar, avisa. “A corrupção tira recursos que poderiam ser direcionados a melhorar a nossa saúde e a educação”, destaca. O garoto diz que não espera perfeição dos governantes.

“Ninguém é perfeito, o que eu acho inadmissível são as alianças sem uma ideologia, só para ganhar a eleição e a falta de valores morais”, avisa Gabriel, que pensa em estudar Direito.

Amadurecimento

Se não fez questão de votar há dois anos, quando tinha 16 anos, agora aos 18, Felipe Resende se define como alguém que acredita no poder do voto. “Eu sei que não é o comum, mas tenho uma crença enorme na política. Acho que o nosso problema é que precisamos conhecer melhor as pessoas em quem votamos”, destaca.

Aluno de um colégio particular, o estudante acredita que a grande prioridade dos próximos governantes brasileiros deve ser a educação. O jovem, que sonha em ser oceanógrafo, conta que precisou realizar um processo seletivo em uma escola pública perto de casa e se debateu com um verdadeiro choque de realidade.

“Não existem oportunidades iguais. Infelizmente, as dificuldades que um estudante de escola pública precisa superar são muito maiores que as minhas”, lamenta. Apesar disso, o jovem mantém viva a esperança de dias melhores no país, através do voto. “A corrupção faz muitos desacreditarem da política, mas estamos numa democracia e a mudança vai acontecer com a participação de todos”, acredita.

Participação dos jovens

A proporção de jovens entre 16 e 17 anos aptos a votar em relação ao total de pessoas nesta faixa etária no Brasil vem caindo desde 2006, quando 36,99% fizeram o título de eleitor. A queda foi mais acentuada entre 2010 e 2014, quando passou de 34,8% do total para 23,3%. Entre 2014 e 2018, o movimento indica uma desaceleração na queda. Entre 1998 e 2006, o movimento foi de alta na participação.

“Os motivos para esta desaceleração precisam ser muito bem estudados, mas os dados não indicam uma visão pessimista”, analisa o cientista político Paulo Fábio Dantas.

O número de eleitores entre 16 e 17 anos aptos a votar caiu 14,53% no Brasil, passando de 1.638.751 para 1.400.617, de acordo com dados divulgados pelo TSE no final do mês passado.

Para o cientista político Joviniano Neto, a redução dos votantes de 16 e 17 anos pode ter sido influenciada por dois fatores. “O desinteresse pela política é uma questão. A campanha eleitoral será mais curta. Além disso, tem a própria situação nacional, com a grande indefinição. Eles podem não sentir estímulo, não veem esperança que seu voto fará a diferença”, analisa.

O segundo aspecto é social. Com a crise econômica e o desemprego, os jovens de 16 e 17 anos, por não serem obrigados a votar, podem não priorizar a participação nas eleições.

O especialista também cita a questão demográfica, devido ao envelhecimento da população brasileira. No ano passado, dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelaram que o grupo de idosos cresceu 16% entre 2012 e 2016.

Brasil decepciona, mas o jovem quer contribuir mais

Apenas um em cada três jovens brasileiros com idades entre 17 e 23 anos considerou o país um bom lugar para se viver. Os dados da pesquisa Geração Z: Pesquisa Global de Cidadania, realizada pela fundação britânica Varkey, colocam o país na 15ª posição, empatado com a Rússia, em um ranking com 20 nações. A liderança do ranking pertence ao Canadá, considerado bom para viver por 86% dos entrevistados.

Entre os 34% que consideram o Brasil um bom lugar para viver, 41% apontam a liberdade para viver da maneira que escolher como a explicação para a satisfação. Apenas 3% apontam a qualidade dos serviços públicos e a infraestrutura do país como justificativa.

Por outro lado, os jovens brasileiros lideram o ranking daqueles que consideram importante contribuir mais com a sociedade, com 86% do total.

Os desafios enfrentados pelo país agora são diferentes dos vivenciados em 2001 e 2002, quando a turma que vai votar agora pela primeira vez nasceu. Naquela época, o acesso à internet era discado, através de um computador que perde em desempenho para qualquer smartphone mediano de hoje em dia. Os celulares? Tijolões que faziam ligações e mandavam SMS, com telas monocromáticas.

O consultor político e advogado da Hold Assessoria Legislativa Álvaro Maimoni lembrou, durante uma entrevista à Folha de S. Paulo, que no passado recente pesa sobre os adolescentes a intensificação do debate político após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.

Ele destaca a atuação de movimentos políticos que surgiram na esteira da onda de protestos de rua em junho de 2013.

Para ele, jovens que hoje estão na faixa dos 16 anos cresceram com o noticiário envolto em corrupção em órgãos públicos. “Sempre escutaram coisas como ‘nós temos que acabar com a corrupção’ e compraram essa ideia”, diz.

O interesse de adolescentes por votar pela primeira vez tem relação com a forte presença de jovens em redes sociais, ambiente em que candidatos divulgam suas propostas, repercutem notícias e até fazem pronunciamentos em tempo real —as chamadas “lives”.

O pesquisador de Ciência Política da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Renato Franchisquini lembra que em muitos casos, os novos eleitores têm contato com as discussões políticas através das redes sociais muito antes do contato com os espaços tradicionais, como o movimento estudantil. “É um público afeito à comunicação pelas redes sociais, que tem as suas próprias estratégias de mobilização”, diz.

Outra questão apontada é a identificação de jovens com temas de cunho social.

“Para o senso comum, vivemos um período de descrença política, mas vemos engajamento dos jovens em coletivos, não em partidos”, diz Marco Teixeira, pesquisador do Departamento de Gestão Pública da FGV.

Tudo isso se soma à natural rebeldia da juventude. “É uma característica do jovem ser do contra, buscar a mudança, as transformações sociais. Ele é mais receptivo aos discursos radicais, à esquerda e à direita”, diz o cientista político Hilton Cesario Fernandes, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), em entrevista à BBC Brasil.

Fonte: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/eles-vao-votar-porque-querem-mudancas/

Comments are closed.