As lições da paralisação

Passado o ponto mais crítico da crise gerada pela paralisação dos caminhoneiros, o
Brasil retoma certa "normalidade". O movimento, porém, deixou sequelas e, agora, é
importante que o país reflita sobre as lições do ocorrido. Vamos a elas.

Governo Temer e negociação: com baixíssimos índices de aprovação popular, fraco e
sem agenda, o governo Temer conduziu de maneira equivocada as negociações com os
caminhoneiros. O Planalto embarcou na chantagem da categoria e, ao final, cedeu
demais. Faltou pulso e sobraram declarações desencontradas. O sinal foi claro -
qualquer grupo organizado pode colocar o governo Temer no corner.

Governadores: faltou colaboração por parte dos governos estaduais ao longo da crise.
Pelo menos quatorze governadores se recusaram publicamente a discutir o ICMS, uma
das demandas centrais dos caminhoneiros. Mais ainda, ficaram praticamente de
espectadores nos momentos chave da crise. Apenas o paulista Márcio França (PSB)
chamou a categoria para conversar. Esse movimento, não se sabe se devidamente
calculado, pode gerar dividendos eleitorais para o socialista.

O papel do Congresso Nacional: as lideranças de Câmara e Senado tentaram pegar
carona na crise. Ao final, o Congresso fez o que dele se esperava - aprovou o corte no
PIS/COFINS até o final do ano e retomou o debate em torno do marco regulatório para
o setor de cargas. O problema é que, caso os parlamentares anistiem as multas
impostas aos grevistas, passarão a clara mensagem de que, em ano eleitoral, é fácil
conseguir benesses. Basta um mínimo de pressão.

O comando da Petrobras: a crise mostrou que o presidente da Petrobras precisa ter
como atributos capacidade gerencial, sensibilidade social e força política. A empresa,
de grande caráter simbólico para a população, foi (e continuará sendo) pressionada em
diversas frentes. O discreto Pedro Parente, gestor respeitado, não resistiu a essa
pressão. É necessário estabelecer com urgência um debate amplo e aprofundado
sobre os rumos da Petrobras e se exercerá papel social ou só comercial.

Dependência da rede rodoviária: é do conhecimento geral que, desde os governos
Vargas e JK, o Brasil depende basicamente da malha rodoviária. A recente crise apenas
evidenciou, de maneira dramática, essa realidade. Mais do que nunca, é preciso
repensar esse modelo. Além disso, é necessária a revisão de políticas equivocadas,
como a concessão de crédito farto e fácil aos caminhoneiros em períodos de bonança.
A conta dessas políticas chegou, e mostrou-se salgada.

Opinião pública e redes sociais: a opinião pública mostrou-se contraditória ao longo
da crise. De um lado, houve grande apoio popular ao movimento dos caminhoneiros.
De outro, os brasileiros não se mostraram dispostos a arcar com os custos das
demandas da categoria. Essa contradição mostrou sua face nas redes sociais, o novo
espaço de "debates" da sociedade. Desinformação e manipulação deram o tom,
piorando o quadro geral.

Agenda eleitoral: faltando poucos meses para as eleições, a agenda dos candidatos
necessariamente incluirá os diversos aspectos da crise. Temas como pacto federativo e
reforma tributária, infraestrutura e segurança pública ganharam caráter de urgência
no debate nacional. Não importa o posicionamento ideológico de cada candidato, o
importante é que se aborde com honestidade e coragem essas questões. Uma
pergunta fica no ar - terão os candidatos capacidade, vontade e força política para
fazer avançar, ao menos minimamente, essa agenda?

O debate está colocado. Não há mais o que postergar.

André Pereira César
Cientista Político

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