Sobre o futuro político de Cunha e Temer

Dois eventos ocorridos nos últimos dias precisam ser analisados com atenção, pois terão reflexos diretos sobre o futuro da política brasileira. A aprovação do relatório que pede a cassação do mandato de Eduardo Cunha (PMDB/RJ), no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, e a delação premiada do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, trazem novos elementos ao já dramático quadro. O futuro do governo interino de Michel Temer está diretamente conectado aos dois fatos.

No caso de Cunha, a ele restam limitadas opções de ação. A derrota no Conselho de Ética representa um importante revés político e mesmo alguns de seus aliados mais fiéis começam a rever suas posições. O presidente afastado da Câmara recorreu à Comissão de Constituição e Justiça da Casa, mas ele mesmo sabe que essa tática é meramente protelatória – a votação irá a plenário muito em breve e já se fala em algo em torno de 270 votos pela cassação. São necessários 257 votos para que um deputado perca o mandato.

Quanto à delação premiada de Machado, que veio à público na quarta-feira, 15 de junho, seu conteúdo é explosivo. O ex-presidente da Transpetro cita nomes de integrantes e aliados do governo Temer, incluindo o próprio presidente interino, que teria solicitado recursos ilícitos para a candidatura de Gabriel Chalita à prefeitura de São Paulo. A fala de Machado já produziu uma vítima – Henrique Eduardo Alves, um dos citados, entregou o cargo de ministro do Turismo na noite de quinta-feira, 16 de junho. Alves, como se sabe, além de aliado, é amigo pessoal de Michel Temer, e sentiu-se sem condições de continuar no comando do ministério. Em Brasília, espera-se que outros ministros repitam o gesto e também deixem o governo.

A soma dos dois eventos apresenta um resultado de enorme gravidade política. Acuado, Eduardo Cunha pode aceitar fazer sua delação premiada e confirmar o que já foi falado por Machado, colocando o governo Temer em situação ainda mais delicada. A delação de Machado, por sua vez, estimula outros personagens envolvidos na Operação Lava-Jato a apresentarem o que sabem. Novidades podem surgir a qualquer momento.

De tudo falado acima, apenas um ponto é positivo para o governo Temer. O afastamento definitivo de Eduardo Cunha, se confirmado, obrigará a Câmara dos Deputados a eleger um novo presidente, e esse nome certamente surgirá de uma ampla construção política (como se deu em 2005, com a escolha de Aldo Rebelo para substituir Severino Cavalcanti, que renunciou). Com a normalidade político-institucional reestabelecida na Casa, haverá espaço para a discussão efetiva da complexa agenda do governo provisório, que inclui, entre outros a proposta de emendas constitucional que estabelece um teto para os gastos públicos.

Resta saber se o governo Temer terá tempo e não sofrerá novos reveses ao longo desse processo.

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