Política em convulsão

O bordão do ex-presidente Lula, “nunca antes na história desse país”, ganhou novo significado nos últimos dias.  Não há registro, na história brasileira, de tão profunda crise política e econômica como a de agora. Somem-se a isso um governo catatônico e uma oposição sem propostas e o quadro, já grave, ganha contornos dramáticos. Por ora, não há luz no fim do túnel.

A Operação Aletheia (“em busca da verdade”) da Polícia Federal representou o início de um novo ciclo dentro da crise em curso. Ao colocar Lula no centro das atenções, as autoridades judiciais, de maneira não deliberada, contribuíram para acirrar os ânimos e polarizar ainda mais o debate político. As consequências podem ser graves e embutem riscos reais para a democracia.

A polêmica em torno da condução coercitiva do ex-presidente é apenas uma fração dessa nova etapa da crise. As imagens de Lula sendo conduzido por agentes da PF têm grande peso simbólico e colocaram definitivamente em lados opostos os setores pró e contra o ex-presidente. Os primeiros confrontos físicos entre esses grupos indicam que não pode ser descartada uma espécie de “venezuelização” do país. O Planalto monitora com atenção esse quadro e o grande teste se dará no domingo, 13 de março. Ao governo Dilma não interessa, em hipótese alguma, o surgimento de um cadáver.

Para a presidente Dilma, por sinal, o único aspecto positivo do momento político é a possibilidade de se reaproximar do PT. Como se sabe, o partido vinha criticando duramente algumas propostas do Planalto, como a reforma da Previdência, e sinalizava com um progressivo afastamento do governo. Agora, diante da nova realidade, os petistas e Dilma deverão unificar o discurso e a ação política, visando a defesa do maior nome da agremiação – e ainda potencial candidato em 2018. O ataque a Lula, avaliam os petistas, é um ataque direto ao partido.

Lula, por sua vez, retoma o protagonismo político. Com cerca de 20% das intenções de voto, hoje, ele ainda seria um candidato competitivo. Sua decisão de viajar pelo país o coloca como o primeiro pré-candidato à sucessão de Dilma.

A hipótese do ex-presidente assumir uma pasta, porém, é arriscada. Para Lula, seria uma espécie de “confissão de culpa” e poderia acelerar a tramitação das investigações já existentes sobre ele – o Ministério Público de São Paulo denunciou o ex-presidente por lavagem de dinheiro no caso do apartamento do Guarujá (SP). Já a presidente Dilma se tornaria uma figura decorativa, a reboque das decisões do novo “superministro”. A pressão de petistas sobre a presidente, porém, é grande.

Para piorar ainda mais o quadro, há sinais de defecções na base aliada. A reunião entre senadores do PMDB e do PSDB, na noite de quarta-feira, indica que um diálogo entre as partes está se iniciando. Apesar do discurso oficial de que os partidos “trabalharão juntos para buscar uma saída para a crise”, sabe-se que os peemedebistas estão insatisfeitos com os rumos do Planalto. A Convenção Nacional do partido, sábado próximo, poderá reservar alguma surpresa para a presidente Dilma – que no momento não tem recursos políticos para influenciar as decisões do PMDB.

Cabe ressaltar que a decisão do Senado Federal de retomar o debate em torno da instalação do regime parlamentarista no Brasil para atenuar a crise não deverá prosperar. A proposta, apoiada por setores do PMDB e do PSDB, além de casuística, está longe de um mínimo consenso.

Por fim, a decisão do Supremo Tribunal Federal de barrar a indicação de Wellington César para o ministério da Justiça é mais uma clara evidência e que o Planalto está sem rumo. Estava claro na Constituição Federal que um membro do Ministério Público não poderia assumir uma vaga no Executivo. Agora, César terá vinte dias para se decidir sobre abandonar a carreira de Procurador e assumir a pasta. Durante esse período o ministério da Justiça ficará com um interino no comando.

A sucessão de eventos dramáticos tem um efeito de tsunami sobre os brasileiros. Ao contrário de outros tempos, agora as manifestações da crise ocorrem diariamente, em diversas frentes. Diante desse quadro, o governo Dilma pode estar com os dias contados.

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