CONSIDERAÇÕES SOBRE RODRIGO MAIA E MICHEL TEMER

“Muitos dizem que o Rodrigo não sorri”.

Com essa frase-síntese, de forte tom autocrítico, o deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ) demonstrou, com humildade raras vezes vista em plenário, o nível de sua disposição para superar as dificuldades políticas e derrotar o candidato do “novo centrão”, Rogério Rosso (PSD/DF), na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados.

Maia valeu-se de sua vasta experiência política. Em seu quinto mandato de deputado federal, após ter inclusive ocupado a presidência nacional do DEM, Rodrigo Maia atinge agora o ápice da vida parlamentar. Os 285 votos obtidos no segundo turno, contra os 170 de Rosso, dão a ele plenas condições de retomar plenamente o diálogo há tempos interrompido entre os deputados e entre a Câmara e o Palácio do Planalto. Igualmente a sociedade civil organizada pode entrar nesse pacote, assim como os legislativos estaduais podem ter mais espaço nas negociações.

Para vencer, ele contou com o apoio do DEM, do PSDB, do PPS, do PSB, do PR e da esquerda – notadamente PDT e PC do B. Nem mesmo a declaração de Marcelo Castro (PMDB/PI), outro dos favoritos, de caminhar ao lado de Rosso no segundo turno foi capaz de evitar o êxito de Maia.

A vitória de Maia traz ainda outros dados relevantes para o atual cenário. Ele seria o líder do governo de Michel Temer tão logo esse assumiu em caráter interino, mas o “novo centrão” mostrou-se mais forte naquele momento e emplacou o nome de André Moura (PSC/SE). O êxito do deputado do DEM, agora, indica que a junção de partidos pouco ideológicos do “novo centrão” está enfraquecendo, enquanto o establishment recupera a supremacia. Além disso, representa o retorno da antiga oposição a uma cadeira importante na Casa após cerca de quatorze anos afastada. O velho PFL retoma o protagonismo perdido e volta a ter relevância no quadro político brasileiro. O PSDB, seu principal aliado, certamente se manterá a seu lado.

Da parte do Planalto, o destaque foi para o relativamente baixo grau de interferência do presidente e de seu núcleo político no processo sucessório da Câmara. Esse fato pode, sem dúvida, ajudar na recomposição que se iniciará agora.

Mesmo assim, ao presidente Michel Temer resta avaliar as possíveis sequelas do processo dentro da base. A pergunta imediata é “estará o novo centrão dividido?”. Em caso de resposta positiva, o presidente da República precisará chamar o grupo para uma conversa imediata.

O cenário pós-Eduardo Cunha está repleto de desafios. O novo condutor da Câmara não poderá errar. Com as crises política, econômica e moral em curso, a já complexa agenda brasileira depende ainda mais das decisões dos deputados. Decisões que precisam ser tomadas a curto prazo.

O jogo muda de fase, fase essa que durará até o início de 2017, quando um novo processo sucessório se dará na Câmara. Sem a participação de Rodrigo Maia como candidato.

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