Um balanço do primeiro de maio – quem ganhou, quem perdeu

O Dia do Trabalho gerou uma forte expectativa entre os eleitores das duas principais pré-candidaturas presidenciais. Amplificada pela imprensa, a data serviria como uma espécie de laboratório aos candidatos. O titular do Planalto, Jair Bolsonaro (PL), utilizou as redes sociais para mobilizar seus eleitores. Já o ex-presidente Lula (PT), aproveitou o histórico e já conhecido evento sindical para discursar. Apesar da polarização crescente, nenhum dos dois eventos teve o sucesso esperado.

As manifestações a favor do governo, capitaneada pela ala mais radical e ideológica dos apoiadores de Bolsonaro, reapresentaram o tom já conhecido, com ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e às urnas eletrônicas. Alertado por aliados a não inflamar ainda mais seus apoiadores, Bolsonaro falou rapidamente, por vídeo, em São Paulo. Fez a já conhecida defesa da família e dos valores tradicionais. Um tom mais ameno que o registrado no 7 de setembro passado.

Apesar do comedimento do presidente da República, ao menos uma reação de peso foi registrada. O presidente do Congresso Nacional e do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (PSD/MG), afirmou que "anomalias graves que não cabem em tempo algum" estiveram no bojo das manifestações patrocinadas pelos governistas mais radicais. Também na avaliação do parlamentar, esses atos ofuscam "a essência da data" que marca o Dia do Trabalho.

Alçado por hora a protagonista do bolsonarismo, o deputado Daniel Silveira (PTB/RJ), que recebeu uma graça presidencial anulando a condenação que recebeu do STF por ataque às instituições, compareceu ao ato no Rio de Janeiro. Aplausos da claque, o que mostra, mais uma vez, que essa parte mais radical e ideológica do bolsonarismo pouco se importa com o “histórico” do deputado e os seus atos de violência. Para esses, o que vale é o apoio pelo apoio a tudo que representa o antissistema.

Na oposição, as manifestações foram igualmente modestas. No principal evento, no estádio do Pacaembú, em São Paulo, o ex-presidente Lula falou em gerar empregos e combater a inflação. Um discurso mais condizente com a data, o que, em tempos bicudos, com o aumento da violência às instituições e às biografias, fez toda a diferença.

Ao final, se se levar apenas a quantidade de público, pode-se afirmar que o resultado foi um empate entre governo e oposição. Mas, ao analisar friamente os discursos proferidos nos eventos, foi possível perceber a diferença na postura e no tom dos pronunciamentos dos pré-candidatos. Enquanto a oposição e Lula adotaram manifestações voltadas para a importância e história da data, Bolsonaro e seus apoiadores se voltaram contra as instituições e o regime democrático, com explícitos pedidos de intervenção militar com o fechamento do Congresso e STF. Nesse quesito, não houve empate. Quem atacou as instituições e a democracia, perdeu.

Bolsonaro e Lula seguem como os principais atores do processo sucessório e, com o esvaziamento da chamada “terceira via”, tendem a concentrar mais e mais os holofotes.

André Pereira César
Cientista Político

Alvaro Maimoni
Consultor Jurídico

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