Há risco de golpe no Brasil de 2022?

Nos últimos tempos, ganhou espaço na crônica política brasileira a questão sobre um eventual golpe a ser dado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) para se manter no poder. Analistas, articulistas e observadores em geral têm alertado para os riscos de tal movimento, mas quais as reais chances desse quadro se materializar?

Aos fatos. Desde sua posse ainda no início de 2019, quando optou em permanecer no palanque, o titular do Planalto adotou uma postura de confronto com as instituições, em especial o Judiciário. Ataques frontais do presidente, de integrantes do governo e também de seguidores, praticamente se tornaram a norma vigente. O Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tornaram-se inimigos do bolsonarismo e seus membros, hoje, são alvos. Uma situação inédita (e inusitada) na história do país.

Os ataques não estão restritos ao Judiciário. A imprensa tradicional, tachada de “comunista”, “globalista” e “mentirosa”, também sente os efeitos dessa realidade. Pior, em um mundo tomado pelas redes sociais e a disseminação de Fake News, o jornalismo tem poucos recursos em mãos para reagir.

Por fim, os adversários políticos e seus apoiadores (classe artística, intelectuais, cientistas, sociedade civil organizada) passaram à condição de inimigos, devendo ser não somente derrotados, mas também exterminados. Em pleno século XXI, assiste-se a um discurso digno de Carl Schmitt, um dos formuladores da teoria nazista.

O crescimento da oposição na disputa sucessória, atestado pelas pesquisas de intenção de votos, torna o quadro ainda mais delicado. A possibilidade de vitória do ex-presidente Lula (PT), hoje real, acende novo sinal de alerta no governismo. Uma virada de mesa, nessas circunstâncias, torna-se uma hipótese tentadora. O eleitorado mais radical e ideológico de Bolsonaro apoiaria esse tipo de ação, inclusive pegando em armas, em atendimento ao recente pedido feito pelo presidente para que a população se arme.

Mas como se daria um golpe hoje? Não teríamos uma tradicional quartelada, tão comum na América Latina das décadas de sessenta e setenta do século passado. O modelo hoje é o trumpismo, nos Estados Unidos, e o governo de Viktor Orbán, na Hungria. Destruir as instituições por dentro, pouco a pouco – o que vinha ocorrendo desde o início do governo, mas o ritmo aumentou a partir de 2022. Judiciário e imprensa desmoralizados e, ao final, esvaziados. O roteiro está dado.

Os militares, por seu turno, teriam papel acessório. Setores das Forças Armadas (não toda a caserna, é importante frisar) ligados ao bolsonarismo apoiariam uma mobilização nesse sentido. A recente pressão dos militares fiéis a Bolsonaro, sobre o sistema eleitoral, é uma espécie de ensaio para o ato.

Faltando menos de cinco meses para as eleições, o quadro é de incerteza absoluta. A palavra “golpe” está na cabeça de muitos. Uma virada de mesa, fora das regras do jogo democrático, não pode ser descartada por ora. Caso isso ocorra, as consequências poderão ser trágicas para o país. Um novo pária global definitivamente estaria nascendo.

André Pereira César
Cientista Político

Alvaro Maimoni
Consultor Jurídico

Comments are closed.