Bolsonaro vai à América

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) retorna aos Estados Unidos da América, a primeira visita na gestão do democrata Joe Biden. Um encontro com o mandatário norte-americano, porém, não consta na agenda do brasileiro. Ele falará na abertura da Assembleia Geral da ONU, uma tradição.

A chegada do titular do Planalto e de sua comitiva dá o tom da viagem. Ele entrou pelos fundos do hotel onde está hospedado, evitando contato com (poucos) manifestantes à frente do prédio. Um desnecessário desgaste foi evitado.

A expectativa sobre a fala de Bolsonaro é grande, em especial nos meios político e diplomático do Brasil. No Itamaraty, há quem aguarde o anúncio da doação de vacinas contra a COVID-19 a países da América Latina, estabelecendo assim uma agenda positiva.

Mais ainda, o discurso poderá ser focado na diplomacia da saúde, no combate ao desmatamento e na economia. “Poderá”, mas nada garante que assim o seja. Ainda no Brasil, o presidente afirmou que diria “verdades” na ONU, sem entrar em detalhes. Conhecendo-se o estilo belicoso e o temperamento mercurial de Bolsonaro, tudo é possível, inclusive o aprofundamento do discurso negacionista que tem afastado o Brasil da comunidade internacional.

De concreto, o brasileiro se reunirá com o primeiro-ministro britânico Boris Johnson, e com o presidente polonês Andrzej Duda, esse último um político ideologicamente alinhado a Bolsonaro. Conversas que não devem gerar efeitos significativos para o Brasil.

Por fim, a foto que circula na mídia, de Bolsonaro, acompanhado por vários ministros, comendo pizza em uma rua de Nova York, é plena de significados. O presidente aparece a seu apoiador mais fiel, cerca de 1/5 do eleitorado, como um “igual” - sem máscara, sem poder entrar em qualquer estabelecimento por não ser vacinado, alimentando-se sem luxo algum. Trata-se, mais uma vez, de reforçar o “mito”.

Bolsonaro não respeita a liturgia, os ritos relativos ao cargo que ocupa. Na abertura da Assembleia Geral da ONU, ele terá uma nova oportunidade de aparecer ao mundo como um estadista - ou falar novamente aos seus, apequenando-se aos olhos de todos. A escolha está nas mãos do presidente da República.

André Pereira César
Cientista Político

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