A terceira via em seu labirinto

A proposta de construção da chamada “terceira via” - ou “campo democrático” - vive provavelmente seus momentos finais. Após a saída do União Brasil do grupo de partidos que integram o bloco, as divergências dentro e entre as legendas restantes dificultam qualquer negociação. Um projeto prestes a se encerrar.

A decisão da cúpula do União Brasil de abandonar o grupo e partir para uma pré-candidatura própria, com o deputado Luciano Bivar (PE) à frente, foi a senha. Na verdade, o partido sabe que tanto a ideia da terceira via quanto uma chapa “puro-sangue” não têm chances de prosperar. Assim, Bivar e seus correligionários terão espaço e condições de negociar com a campanha do presidente Jair Bolsonaro (PL). O União Brasil tende a fechar com o titular do Planalto.

Do outro lado, PSDB e MDB enfrentam sérios problemas. Entre os tucanos, caiu como uma bomba a possibilidade de seu pré-candidato, o ex-governador paulista João Dória, ingressar na justiça para fazer valer o que foi decidido nas prévias partidárias. O partido, já rachado, parece afundar mais e mais na crise. Pior, as lideranças batem cabeça. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso declarou apoio a Dória, enquanto o deputado mineiro Aécio Neves, apesar de desafeto do paulista, defendeu sua candidatura.

Isso sem falar na posição do ex-senador e ex-ministro Aloysio Nunes, que anunciou apoio a Lula (PT) já no primeiro turno. O PSDB, hoje, é um barco à deriva, e o desempenho da legenda na disputa por cadeiras na Câmara dos Deputados pode ser seriamente afetado por esse quadro.

No MDB, a disputa interna não representa propriamente uma novidade, mas coloca em risco as chances da senadora Simone Tebet (MS) encabeçar uma chapa. Enquanto lideranças do Norte e Nordeste seguem defendendo o apoio ao petista, frações significativas do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste pendem para Bolsonaro. Com desempenho pífio nas pesquisas de intenção de voto, a pré-candidata pode ser abandonada antes mesmo da campanha - ou, lançado seu nome, ser cristianizada por seus pares.

Resta o ex-ministro Ciro Gomes (PDT). Não necessariamente um nome da terceira via, ele pode se aproveitar do vácuo deixado pelo bloco e assumir o posto. Para isso, porém, terá de ampliar a mesa de negociações e, mais ainda, reajustar seu discurso, hoje distante das propostas de outros partidos do grupo.

Assim, o dia 18 de maio, previsto para a definição do nome da terceira via para disputar a sucessão presidencial, não deverá trazer novidades.

Como se vê, a terceira via era uma ideia interessante que, por diversas razões, não vingou. Falta de nomes politicamente consistentes, de um projeto único viável e, principalmente, de apelo popular, levaram o bloco à debacle.

André Pereira César
Cientista Político

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