Sobre caminhões e política

Um espectro ronda o Planalto há algumas semanas. Apesar das recentes conquistas da categoria, lideranças dos caminhoneiros seguem ameaçando com a possibilidade de nova paralisação nacional. Sem controle sobre a situação, o governo sabe dos riscos que corre.

Voltemos no tempo. Em 1999, no segundo mandato de FHC, solicitando uma extensa lista de reivindicações, cerca de 800 mil caminhões ficaram parados em todo país por uma semana. Em 2002, tanqueiros cruzaram os braços na cidade de São Paulo contra as restrições de circulação de caminhões na Marginal Tietê. Após três dias, com o município sem combustível nos postos, decisão judicial levou ao fim da paralisação.

Mais recentemente, em 2015, no segundo governo Dilma, houve manifestações por todo o país e um grupo de caminhoneiros marchou à Brasília para pressionar o Planalto. Na ocasião, pouco conseguiram, mas demonstraram a força da categoria. Por fim, a grande paralisação de maio de 2018, em pleno ocaso do governo Temer, gerou uma grave crise política e produziu perdas sensíveis para a economia.

No affair atual, o mais recente evento se deu com a divulgação de conversas entre o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e lideranças dos caminhoneiros. Ele fala em "dar uma trava na Petrobras" e "cuidar de questões de fiscalização". Tudo levou ao cancelamento do reajuste previsto para o diesel, com as consequências que se sabe para a Petrobras, fazendo a bolsa de valores cair e o dólar subir.

O ponto central da questão é que, mesmo atendendo a muitas das reivindicações, o Planalto não está conseguindo conter o ímpeto dos manifestantes. Pior, uma paralisação de porte ainda incerto pode ocorrer no final do mês. A já combalida economia pode sofrer novo revés.

Do processo em curso fica a lição de que um governo não pode ceder a esse tipo de pressão. Politicamente fracos, FHC, Dilma e Temer pagaram preço alto nas mãos dos caminhoneiros. Já Bolsonaro, em tese, teria condições de conter o movimento, apoiado em seu capital político. Caso não o consiga, será grave derrota para o Planalto. E abrirá o flanco para a ação de outros setores organizados da economia.

André Pereira César
Cientista Político

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