Apertem os cintos, o ministro da economia sumiu

A crise econômica pede passagem. O desemprego segue elevado, a inflação não dá sinais de recuo e os juros continuam a trajetória de alta - o Banco Central elevou novamente a taxa básica (Selic), agora em 12,75%. Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro (PL) e sua equipe econômica praticamente não se pronunciam sobre o tema. Por onde anda o ministro Paulo Guedes?

Aos números. Segundo o IBGE, o Brasil registra hoje taxa de desemprego de 11,2%, cerca de 12 milhões de pessoas sem ocupação. Esses números, porém, não incluem a informalidade e os desalentados - aqueles que desistiram de buscar emprego. A situação é pior.

Quanto à inflação, os dados são alarmantes e a percepção geral é a de que ela está fora de controle. Ainda segundo o IBGE, o índice de difusão - que mede a quantidade de produtos e serviços que subiram no mês em relação ao total de itens pesquisados - passou para 78,7% em abril. Ou seja, oito em cada dez itens avaliados sofreram reajuste. Alimentos e combustíveis são exemplos dessa realidade, que afeta a todos, sem exceção.

Desse modo, ao Banco Central, que parece ser o único a verdadeiramente se preocupar com o descontrole inflacionário, não resta alternativa a não ser elevar seguidamente a taxa básica de juros, um dos poucos instrumentos à sua disposição, diga-se. Pior, o ciclo de alta parece não ter se encerrado, com provável nova rodada em junho. No mercado, já se fala na Selic próxima aos 14%, o que dificulta ainda mais os investimentos e piora a situação da população, boa parte já endividada.

Em paralelo, o presidente da República em resposta à grave crise econômica e social que assola o país, em vez de esboçar uma reação, seja ela qual for, se limita a transferir a culpa para a pandemia, os governadores e prefeitos e a guerra na Ucrânia. Assim, como se nada estivesse acontecendo, segue em plena campanha à reeleição, utilizando-se de dois artifícios principais: confrontar as instituições, o que mobiliza sua base mais fiel e ideológica, e lançar “pacotes de bondades” para diferentes setores da economia e da população. Esse último é extremamente danoso para o país, com o estouro do teto de gastos, gerando um passivo por ora ainda não calculado - mas a conta para os próximos anos será salgada.

E por falar em saudades, onde anda o ministro Guedes? Com uma postura extremamente discreta nos últimos tempos, ele aparece apenas em eventos esporádicos, nos quais solta platitudes do tipo “a guerra da Ucrânia ajudou a provar a confiança no Brasil”. Muito pouco de quem se esperava um pouco mais. O ministério da Economia, hoje, é um corpo inerte, sem capacidade mínima de ação.

De personagem fundamental para a eleição de Bolsonaro em 2018, Paulo Guedes passou à condição de figura menor no governo, justamente no momento de maior gravidade da crise econômica. O país perde muito com sua inação. O piloto sumiu.

André Pereira César
Cientista Político

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