O fator Bolsonaro

Não se deve subestimar Jair Bolsonaro (PSL). A candidatura presidencial do deputado
federal segue firme e, por menor que seja sua estrutura de campanha, pode
surpreender.

O Roda Viva, exibido pela TV Cultura na última segunda-feira, sintetiza essa realidade.
Bolsonaro, apesar de suas limitações mais que conhecidas, conseguiu superar uma
bancada de jornalistas que lhe era francamente desfavorável. Mais ainda, com a
participação de seus apoiadores na internet, o programa bateu recorde de audiência.
O barulho foi grande - e incomodou a muitos.

A internet, por sinal, é um importante ativo da candidatura Bolsonaro. Ele e seus
aliados se utilizam de maneira eficaz dos recursos da grande rede. Redes sociais e afins
são campos já dominados pelos potenciais eleitores do capitão aposentado e deverão
compensar o pouco tempo de propaganda a que terá direito. Especialistas na área
avaliam que o parlamentar "caminha da internet para outros meios de comunicação",
em especial a TV. Os números do Roda Viva reforçam essa tese.

O discurso e o conteúdo programático de Bolsonaro têm importância relativa para seu
eleitorado. O discurso, em especial, tem um foco específico - em um momento de
grande descrédito da população com a classe política e suas práticas pouco
republicanas, o candidato se apresenta como o outsider que resolverá todas as
mazelas do país. Economia, saúde, educação, segurança, tudo terá solução com o
caráter voluntarioso de Bolsonaro. Essa história o Brasil já conhece.

Ainda sobre comunicação, ao eleitor bolsonarista pouco importa se ele diz bobagens
ou mesmo inverdades. No limite, tudo reforça a imagem do "mito" que vem sendo
construída há tempos.

Muito se fala também nas similaridades entre Bolsonaro e o presidente norteamericano
Donald Trump. Para além das especificidades dos sistemas eleitorais de
Brasil e Estados Unidos, o deputado e o presidente têm sim pontos em comum.

Apresentam-se como anti-sistema, tem um discurso voltado para os grupos sociais que
perderam espaço e status nos últimos tempos e, muitas vezes, são tratados com
deboche por boa parte do mundo político. No caso de Trump, o que parecia uma piada
de péssimo gosto converteu-se em amarga realidade para muitos. Bolsonaro pode se
tornar a versão brasileira dessa história.

Por seu lado o mercado, agente de grande influência sobre o processo eleitoral, analisa
com lupa o candidato. O histórico de Bolsonaro em votações na Câmara dos
Deputados indica que ele está longe de ser um reformista. Isso explica em parte sua
parceria com o economista Paulo Guedes, um liberal bastante respeitado. A quase
"carta branca" que o deputado concedeu a Guedes na agenda econômica tenta
suplantar essa dificuldade. Resta saber se o mercado comprará a ideia - ou se, mais
provável, acompanhará o tucano Geraldo Alckmin, um nome mais seguro e que
recentemente ganhou musculatura política ao se aliar ao Centrão.

Por último, as pesquisas mostram Bolsonaro, até o momento, como um candidato
competitivo. O mais recente levantamento disponível, realizado pelo Instituto Paraná
Pesquisas no final de julho, apresenta o candidato com 24% das intenções de voto, em
um cenário sem Lula. Nesse mesmo cenário, Marina Silva aparece em um distante
segundo lugar, com 14% das citações. Como o líder petista não deverá participar do
pleito, a situação de Bolsonaro é confortável.

Restam ainda muitas perguntas no ar. Terá a campanha fôlego para chegar ao segundo
turno? Como ele se comportará em debates? A novela em torno da escolha do vice
terá algum impacto eleitoral? Por fim, em caso de vitória, quais grupos políticos
Bolsonaro buscará para governar o país?

Nessa quinta-feira, Bolsonaro terá novo compromisso na TV. Ele será entrevistado ao
vivo pela Globonews. Será mais uma oportunidade para se aferir o potencial do
candidato.

André Pereira César
Cientista Político

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