Simplicidade e brevidade. As duas palavras resumem o discurso de Jair Bolsonaro em Davos, na Suíça. Genérico, o presidente deixou mais dúvidas que certezas entre os que acompanharam sua fala.

A imprensa, como era de se esperar, explorou os aspectos negativos do evento. O Estado de São Paulo afirmou que "Bolsonaro fez um discurso vago", no qual ele falou em abertura comercial, mas não detalhou as reformas que pretende realizar. O jornal O Globo foi na mesma linha, assim como a Folha de São Paulo, que em editorial afirmou que a manifestação “foi satisfatória, embora sucinta demais.” Mesmo os jornais estrangeiros criticaram Bolsonaro. O Washington Post afirmou que "o novo presidente do Brasil fracassou em sua estreia internacional". Já o Financial Times destacou que foi uma “aparição breve e controlada.” O francês Le Monde, mais incisivo, ressaltou que o presidente Jair Bolsonaro “se satisfez em fazer o mínimo e que o seu discurso não deve ir para os anais de Davos”.

Um banqueiro alemão sintetizou à perfeição o impacto do discurso. "Ele deu manchetes, mas nós queremos detalhes", afirmou.

Só que nem todos concordam com essas críticas. O articulista do site G1, Helio Gurovitz, por exemplo, destaca que “o governo Jair Bolsonaro acertou no tom e no conteúdo” e que “as críticas que recebeu são injustas” porque “a brevidade” do discurso é antes de tudo, “uma qualidade”, porque “evitou expôr o presidente e, por tabela, o país” pois, se utilizasse “todo o tempo de que dispunha, até 40 minutos, o obrigaria a se estender por assuntos que não domina. Ou seria maçante, ou o exporia ao ridículo”. Bolsonaro “ter reconhecido a própria limitação revela maturidade”.

A postura de Bolsonaro na pequena cidade suíça foi igualmente objeto de críticas. Ele cancelou reuniões previamente agendadas com executivos e preferiu almoçar sozinho no bandejão de um supermercado, longe dos encontros formais entre chefes de Estado e investidores. Segundo frequentadores do evento, o último presidente brasileiro que não participou de cafés e almoços realizados pelos organizadores do Fórum e que preferiu “turistar” por Davos, foi Fernando Collor de Mello.

O destaque positivo foi o ministro da Economia, Paulo Guedes, que assumiu o papel de transmitir uma mensagem mais direta ao mercado, especialmente no que diz respeito à reforma da Previdência. Guedes, por sinal, vem se mostrando bastante pragmático e ganha cada vez mais espaço no governo.

Em suma, Bolsonaro deveria ter falado dos planos econômicos de sua equipe e as projeções para seu mandato. Poderia ter avançado mais. A impressão que deu é que ele estava mais preocupado em se apresentar do que apresentar as propostas de seu governo para o Brasil. Essa estratégia até cai bem para seu eleitor, mas o investidor quer substância, e não espuma.

André Pereira César
Cientista Político

Alvaro Maimoni
Consultor Jurídico

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