A semana que se recusa a terminar

A semana que se passou tenta chegar ao fim. Com ela, muitas incertezas. Nos últimos dias, o governo sofreu uma série de reveses e o presidente Bolsonaro enfrenta dificuldades para reagir. O duelo de declarações parece não ter fim.

  • Pesquisa do Ibope mostrou queda na popularidade presidencial. Em três meses, os que aprovam Bolsonaro passaram de 67% para 51%, enquanto os que desaprovam subiram de 21% para 38%.
  • A viagem do presidente aos Estados Unidos rendeu poucos frutos. De concreto, foi anunciada a liberação de vistos para quatro países, sem reciprocidade, e fechou-se um acordo para os norte-americanos utilizarem a base de Alcântara, no Maranhão. Com o andar da carruagem, as duas medidas poderão ser revistas pelo Congresso Nacional.
  • Não se chegou a um entendimento acerca do relator da proposta de reforma da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados. Para piorar, a base do governo não teve força suficiente para impedir a aprovação de um convite para que o ministro da Economia, Paulo Guedes, fale ao colegiado. A reunião ocorrerá nos próximos dias e espera-se forte pressão sobre o ministro. O sinal de alerta foi ligado.
  • Os partidos que compõem o Centrão (PR, PP, PTB e PRB) ameaçam rebelar-se contra o Planalto. Sentindo-se desprestigiadas, as lideranças partidárias anunciaram que recusarão cargos. Bancadas estaduais ameaçam devolver ao ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil) os cargos federais oferecidos pelo Planalto, sob a justificativa de não serem atraentes o bastante para justificar o apoio ao governo. Pelo menos três bancadas já anunciaram tal decisão: Paraná, Ceará e Alagoas.
  • A proposta previdenciária com a reestruturação da carreira dos militares foi considerada tímida pelo mercado. Mesmo aliados não ficaram satisfeitos com os termos propostos. Até mesmo o líder do PSL no Senado Federal, Major Olímpio (SP), reclamou da falta de instrumentos por parte do governo para defesa da matéria.
  • As prisões do ex-presidente Michel Temer e do ex-ministro Moreira Franco caíram como uma bomba no mundo político e jurídico. Não apenas integrantes do MDB, partido de ambos, mas membros de outras legendas criticaram duramente a medida. Dado o esgarçamento do cenário, a reforma da Previdência fica em grave risco. O cenário que já era ruim, piorou. Até o vice-presidente, Hamilton Mourão, declarou que a prisão criou ruídos para análise da PEC da reforma da Previdência.
  • Em meio à confusão, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM/RJ), considerado o principal articulador da reforma da Previdência na Casa, ameaçou abandonar o governo. Em tom duro, ele criticou fortemente o presidente Bolsonaro e afirmou que o governo é "um deserto de ideias".
  • O ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, travou público embate com o presidente da Câmara Rodrigo Maia por conta da falta de prioridade dada por Maia ao pacote anticrime de Moro. Um elemento a mais nesse bolo de confusão que atingiu o mundo político.
  • A viagem do presidente Bolsonaro ao Chile veio acompanhada de declarações que tiveram o efeito único de potencializar o já conturbado momento político e econômico. A começar pelo ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil) que elogiou o regime do ditador Augusto Pinochet. Tal declaração fez com que os presidentes da Câmara e do Senado chileno emitissem nota contra o governo brasileiro. Depois o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL/SP), presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara afirmou em entrevista a um canal de TV chilena, que o Brasil apoiará uma possível intervenção militar na Venezuela, o que logo foi desmentido por um constrangido presidente Jair Bolsonaro. Por fim, as incendiárias declarações do presidente Bolsonaro, que afirmou que a prisão do ex-presidente Temer se deu em decorrência de acordos políticos para governabilidade. A porta que já estava só meio aberta, foi fechada, caindo por terra qualquer diálogo que ainda poderia existir entre governo e Congresso, pelo menos nessa semana, que se recusa a terminar.
  • A perda de popularidade do presidente Jair Bolsonaro, apontada nas últimas pesquisas, aliado ao acirramento do embate entre o Congresso e o governo, fez com que um grupo de parlamentares reavivasse a discussão sobre a implantação do parlamentarismo no Brasil, sob o argumento de que o modelo presidencialista se esgotou e não atende mais às demandas do país. O que já estava ruim pode piorar.
  • Recentes declarações do líder do PSL na Câmara dos Deputados, Delegado Waldir (GO), de que não é subordinado ao Executivo, ajudaram a agravar a crise: “Nós não fomos convidados para a governabilidade. Então nós não participamos [do governo]. Nós não damos palpites. Nós não temos um ministério. A pacificação da bancada, a entrega de todos os votos [do partido] para a [reforma da] Previdência é missão minha. Ou não. Muito cedo para falar sobre isso".
  • Por fim, o mercado financeiro já dá sinais de que está em vias de perder a paciência pela demora na retomada da economia. Depois de bater recorde, a bolsa teve acentuada queda e o dólar subiu.

Passados três meses da posse, o governo dá sinais de fadiga. Sem um rumo definido, sem uma ampla rearticulação política, toda a agenda do Planalto ficará em risco. A estagnação econômica começa a dar sinais. O perigo de um isolamento é real e imediato. Bolsonaro pode entrar no pior dos mundos.

André Pereira César
Cientista Político

Alvaro Maimoni
Consultor Jurídico

Comments are closed.