Perdendo o controle

Já são mais de seiscentos casos do COVID-19 no Brasil e os números deverão aumentar de maneira expressiva nos próximos dias. Enquanto isso, o governo federal segue titubeando e as medidas até agora anunciadas não passam, aos olhos de muitos, de paliativos. O país está à deriva.

A crise gerada pelo novo Coronavírus desnudou uma triste realidade - o presidente Jair Bolsonaro não consegue enfrentar o caos que o Brasil começa a enfrentar. Mesmo seus ministros demonstram limitações em suas pastas. A exceção fica por conta do titular da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que se tornou um protagonista da cena política. Resta saber se conseguirá se manter no cargo, pois começou a incomodar o núcleo mais ideológico do governo.

Para piorar o já conturbado quadro, a opinião pública emitiu fortes sinais de saturamento com o presidente. O panelaço da última quarta-feira, 18 de março, pode ser apenas a ponta do iceberg. Eventos similares corroerão ainda mais a imagem do grupo no poder.

Indo além, o entorno do presidente também não colabora para desarmar os ânimos. Exemplo claro disso foi a desastrosa declaração do deputado Eduardo Bolsonaro culpando a China pela eclosão do novo Coronavírus. O Itamaraty, em nota oficial assinada pelo Chanceler Ernesto Araújo, ajudou a piorar a situação. Importante parceiro comercial, o país asiático reagiu oficialmente, o que obrigou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a pedirem públicas desculpas. Até mesmo a ministra Tereza Cristina, da Agricultura veio a público para tentar apaziguar a situação. O governo chinês, no entanto não aceitou os argumentos e prometeu retaliações caso o deputado Eduardo Bolsonaro não se retrate publicamente. O estrago, porém, já está feito.

Tanto que, de acordo com matéria do jornal Valor Econômico, de 20 de março, o presidente Jair Bolsonaro tentou falar com o presidente chinês para resolver o imbróglio diplomático mas esbarrou na recusa do próprio Xi Jinping em atendê-lo. A reportagem traz, ainda, que “A parte chinesa não aceitou a gestão feita pelo embaixador Ernesto Araújo à noite do dia 18”. O governo chinês, como diz a nota, só aceita como ponto final do imbróglio as desculpas do filho do presidente: “O deputado federal Eduardo Bolsonaro tem que pedir desculpa ao povo chinês por sua provocação flagrante”.

A verdade é que o Brasil carece de lideranças capazes de enfrentar o duro momento. O Planalto segue acéfalo, sem a mínima condição de encarar a turbulência. Tanto que os governadores dos Estados mais importantes do País estão tendo que agir por conta própria. No Rio de Janeiro o governador Witzel fechou fronteiras à revelia do ministro Sérgio Moro e de Bolsonaro. Em São Paulo, medidas semelhantes estão sendo tomadas. Na Bahia, foi necessária uma ordem judicial para determinar que os passageiros que desembarcarem no aeroporto de Salvador passem por medidas sanitárias, contrariando determinação da ANVISA que ainda entende ser desnecessário esse tipo de fiscalização.

E, para piorar ainda mais o quadro, a equipe econômica acabou de divulgar a projeção do PIB de 2020 em meros 0,02%. Na mesma linha, a Fundação Getúlio Vargas divulgou recente estudo onde afirma que, na pior das hipóteses, o quadro pode piorar e a economia recuar em até 4,4%. Paulo Guedes, o “Posto Ipiranga” de Bolsonaro e seus seguidores, que teria resposta para tudo, se mostra cada vez mais incapaz de reagir diante de eventos que não estão nas cartilhas da escola de Chicago.

Dias sombrios estão à espreita, e a política, a economia e a saúde pública passarão por severo teste.

André Pereira César

Cientista Político

Alvaro Maimoni

Consultor Jurídico

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