O avanço do Centrão

Nos últimos tempos, o Centrão conseguiu espaço relevante no governo Bolsonaro. Após um início de administração afastado do Planalto, não porque queria, mas muito mais por conta da postura do presidente Bolsonaro, que entendia ser possível governar sem qualquer tipo de apoio político, o bloco suprapartidário tem agora em mãos diretorias e presidências de estatais, além de um ministério de peso (o ressuscitado ministério das Comunicações, com Fábio Faria, do PSD). No entanto, esse movimento de ocupação ainda não chegou ao fim, como indicam recentes eventos.

Um primeiro sinal foi a declaração de Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Em uma live ocorrida dias atrás, ele afirmou que o Exército está se associando a um genocídio, em referência às dificuldades enfrentadas pelo governo e, em especial, pelo ministério da Saúde, no combate à pandemia. A pasta, como se sabe, tem à frente o general Eduardo Pazuello, que substituiu mais de uma dezena de técnicos por outros militares. Enquanto isso, o número de infectados e de mortos cresce de maneira exponencial.

É preciso se olhar com cuidado a fala de Mendes, o mais político dos integrantes da Corte. Ele tem conexões com o establishment e muitas de suas decisões têm forte conteúdo político. Mais ainda, quando um ministro torna pública uma posição, ele o está fazendo em nome de todo o STF.

Gilmar Mendes expôs uma avaliação corrente no mundo político e sua fala somente aumentou a pressão sobre Pazuello, em especial dessa ala mais fisiológica do Centrão. O ministro pode deixar o cargo em breve, levando consigo todos os demais militares. Com isso, o Centrão deverá avançar mais uma casa, ao assumir a vaga no poderoso ministério - não se cogita outro integrante das Forças Armadas para substituí-lo.

Outro sinal relevante foi a aproximação entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o Centrão, especialmente com uma de suas principais lideranças, o deputado Arthur Lira (PP/AL). O objetivo seria fazer avançar no Congresso Nacional uma agenda pós-pandemia, e a primeira batalha se daria em torno da proposta de reforma tributária. O alvo também está claro - o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ), que deseja ser o protagonista do processo de votação da matéria.

Lira, como se sabe, trabalha para conquistar a presidência da Casa, no início de 2021. Maia, porém, tem seu próprio “favorito”, o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP/PB), que por acaso é o relator da reforma tributária.

Hábil negociador, Lira já caiu há tempos nas graças do presidente Bolsonaro, antes de se aproximar de Guedes. Seus movimentos certamente foram uma das razões para a ação intempestiva do geralmente comedido Maia, de retomar a discussão da reforma tributária “sem a participação do Senado Federal”.

Mesmo que tenha êxito nas duas frentes (Saúde e reformas), é possível que o Centrão não interrompa seu processo de avanço sobre o governo. Esse apetite - legítimo, diga-se - está na gênese do bloco. Afinal, os partidos que o integram ocuparam postos importantes na República desde a redemocratização, seja em governos de direita, centro ou esquerda. Trocando em miúdos, são sobreviventes nessa selva e fazem parte, desde sempre, do establishment político. Apenas retomam assento à mesa do poder.

Como afirma a personagem Tancredi no clássico “O Gattopardo”, de Tomasi di Lampedusa, “se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”.

Bolsonaristas

O embate Gilmar Mendes - militares serve para reanimar as hostes bolsonaristas, que podem pedir novamente o fechamento do Supremo Tribunal Federal. Voltam à cena o soldado e o cabo.

André Pereira César

Cientista Político

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