A sanha do bolsonarismo pelo Senado em 2023

Desde 2019, quando o presidente Jair Bolsonaro (PL) tomou posse, o Senado Federal tornou-se um dos principais focos de resistência ao Planalto. Entre os exemplos estão a CPI da Covid, a privatização dos Correios e o projeto do IR, que não foram apreciados, e as dificuldades para a aprovação de André Mendonça no Supremo Tribunal Federal.

Dada essa realidade, o titular do Planalto e seus aliados trabalham para eleger nomes fiéis ao presidente e sua agenda. Mas essa ação não se restringe ao governo. O grupo político do ex-presidente Lula (PT) também avalia que a Câmara Alta será um espaço cada vez mais estratégico, e tentará eleger mais senadores em outubro.

Apenas para lembrar, serão 27 cadeiras em disputa, uma por estado. Em primeiro lugar, salta aos olhos os senadores que terão o mandato encerrado agora - lideranças como José Serra (PSDB/SP), Tasso Jereissati (PSDB/CE), Fernando Collor PTB/AL), Fernando Bezerra Coelho (MDB/PE), Álvaro Dias (Podemos/PR), Kátia Abreu (PP/TO), Davi Alcolumbre (União Brasil/AP), Omar Aziz (PSD/AM) e Simone Tebet (MDB/MS), para citar alguns.

No âmbito do governo, há nomes de peso confirmados para a disputa. Ex-ministros e nomes nacionalmente conhecidos já estão em pré-campanha, alguns com chances reais de vitória. Mas há problemas localizados, também.

No Distrito Federal, duas ex-ministras, Damares Alves (Republicanos) e Flávia Arruda (PL) competirão na mesma faixa. A entrada de Damares na disputa, no último minuto, irritou o comando do PL, partido de Bolsonaro. Aparentemente, um acordo anteriormente celebrado foi rompido. Caso similar ocorre no Espírito Santo, onde Magno Malta (PL) e Sérgio Meneguelli (Republicanos) lideram a pesquisas. O embate está dado.

Mais simbólico é o caso do Rio de Janeiro, onde o senador Romário (PL) tentará mais oito anos de mandato, mas poderá enfrentar o por ora inelegível deputado Daniel Silveira (PTB), hoje alçado a herói pelo bolsonarismo. No limite, dois aliados do presidente poderão ter um confronto direto. Ambos podem perder ao final.

Já no Mato Grosso do Sul a ex-ministra da Agricultura, Tereza Cristina (PP), joga sozinha nessa faixa de eleitores bolsonarista.

Já na oposição, aparentemente há menos conflito. Nomes como Flávio Dino (PSB) no Maranhão, Otto Alencar (PSD) na Bahia e Camilo Santana (PT) no Ceará têm grandes chances de vitória. Em São Paulo, por outro lado, é necessário se resolver em definitivo o impasse entre o PT e o PSB, com a possível candidatura do socialista Márcio França ao Senado.

E o porquê dessa sanha, observada não só no bolsonarismo, mas também nas principais lideranças, por uma vaga no Senado Federal? A resposta, na verdade, é muito simples.

Desde o início do governo, Bolsonaro e seus aliados entenderam a importância do Senado Federal nos rumos da política, da economia e do judiciário, por ser nessa Casa onde se sabatina e se aprova todas as indicações de autoridades. O poder de influência e de barganha são importantes e relevantes fatores que não podem e não devem ser desprezados.

Há, portanto, um claro projeto em curso. Eleger o maior número de senadores possível para, mesmo com a eventual derrota de Bolsonaro, se possa permitir aos parlamentares bolsonaristas influenciar diretamente na escolha de todas essas autoridades, seja de qual governo for. Ministros de tribunais superiores, diretores de agências regulatórias, CNJ, CNMP, Banco Central, TCU e embaixadores, são alguns exemplos.

Perde-se a cadeira no Planalto, mas não se perde o poder. Essa é a ideia. Ainda mais se se levar em consideração o já grande número de senadores bolsonaristas comandados pelo filho 01, Flávio Bolsonaro. Se essa “bancada” aumentar significativamente, mesmo sem a presidência, esse grupo em tese terá forças suficientes para ditar alguns rumos da República nos próximos anos.

E a oposição? Bom, ela caminha a passos largos nesse mesmo sentido e com essa mesma fome.

Enfim, as disputas pelas 27 cadeiras de senador serão de grande importância para os destinos do país a médio e longo prazos.

André Pereira César
Cientista Político

Alvaro Maimoni
Consultor Jurídico

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