Uma campanha antecipada – Parte 2

Em artigo publicado terça-feira, 10 de dezembro, exploramos os movimentos de alguns atores políticos, que anteciparam em muito o processo sucessório de 2022. Agora, falaremos de duas figuras de especial importância dentro do governismo - o próprio presidente Jair Bolsonaro e seu ministro melhor avaliado pela opinião pública, Sérgio Moro.

Com a melhor avaliação dentre todos os integrantes do atual governo, o ministro da Justiça e Segurança Pública segue firme no radar de setores conservadores do eleitorado. O seu capital político mantêm-se elevado. No entanto, mesmo nesses segmentos há reservas quanto a seu nome. Entre os evangélicos, por exemplo, existe a percepção de que, no caso de uma chapa conjunta Bolsonaro-Moro, nada seria agregado em termos de votos, pois ambos transitam na mesma faixa eleitoral. Uma candidatura solo do ministro, por sua vez, apenas tiraria preciosos votos do atual titular do Planalto, dificultando uma nova vitória da direita.

Também há resistência a Moro entre políticos que apoiam Bolsonaro mas não gostaram da atuação do ministro à frente da Lava Jato. Cabe ressaltar aqui que a maior parte do prestígio do comandante da Justiça deve-se justamente à memória popular da operação iniciada em 2014 e que se retroalimenta a depender da necessidade.

Importante dizer que o movimento pela fixação do nome de Sérgio Moro no ideário popular tem sido realizado em diversas frentes. Outdoors e manifestações em defesa do ministro da Justiça e de seu pacote anticrime reforçam a ideia de que Moro tenta ganhar vida própria no cenário político. A sua campanha antecipada também já teve início e se encontra a pleno vapor.

Por fim, mesmo dentro do Planalto não existe unanimidade. Em recente entrevista, o ministro da secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, fez leves porém diretas críticas a uma possível candidatura Moro em 2022. Sem ser explícito, ele sinalizou que isso poderia até mesmo ser visto como traição dentro do atual grupo político.

Um rápido parênteses. A mais recente operação da Polícia Federal, que teve como alvo um filho do ex-presidente Lula, trouxe consigo forte componente político. A ação agradou em especial ao eleitorado simpático a Moro. Mais um movimento muito bem pensado no xadrez da antecipada campanha eleitoral.

Já Bolsonaro segue em situação ainda confortável. A avaliação positiva de sua administração parou de cair, ao menos por ora, e a economia dá sinais de leve recuperação. Um pequeno alívio para o presidente nesse final de ano.

O principal ativo político de Bolsonaro, no entanto, é sua própria condição de presidente. Ele tem a caneta na mão, a estrutura do governo à sua disposição e está em exposição permanente. Em tese - e é importante frisar o “em tese” - a competição com adversários da oposição já começa desequilibrada.

Bolsonaro entendeu rápido que precisava manter o discurso de palanque para não perder espaço e seus eleitores mais fiéis. Como se vê, nas mais recentes pesquisas até agora divulgadas, essa maneira de agir tem surtido os efeitos desejados. Repetindo um famoso jargão, “nunca antes nesse país” o primeiro ano de um governo termina com a sucessão presidencial tão antecipada na pauta. Se isso é bom, só o tempo dirá.

O fato é que o jogo já está em andamento. Muita água há de rolar e, como se sabe, a política possui dinâmica própria. Mesmo assim, é de fundamental importância acompanhar os movimentos de todos os principais envolvidos nesse processo.

André Pereira César
Cientista Político

Alvaro Maimoni
Consultor Jurídico

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