Um Jogo Complexo

De 2018 para cá, podemos destacar três eventos que foram de fundamental importância para o mundo político brasileiro. A eleição de Jair Bolsonaro e a soltura de Lula são dois deles. O terceiro foi a demissão de Sérgio Moro do ministério da Justiça. Como analisar esse último fato?

Na verdade, o agravamento da crise governista veio junto com o início da pandemia do COVID-19. O então titular da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM/MS), fazia um bom trabalho no combate ao novo Coronavírus, mas perdeu a confiança do presidente da República. Em seguida, foi a vez de Moro, até então um símbolo da atual gestão. Ele também bateu de frente com Bolsonaro e ficou sem condições políticas para continuar à frente da pasta.

Ciente da gravidade do momento, o presidente busca se blindar. O caminho encontrado mais uma vez por um presidente da República foi o Centrão que, por sua vez, também tem interesse em manter um bom relacionamento com o Planalto. A nova parceria, além dos cargos, óbvio, tem um outro ingrediente motivador: Sérgio Moro.

Desde antes do governo Bolsonaro, alguns parlamentares de partidos do Centrão tentam chegar à Moro por conta de investigações e processos da Lava-Jato. De juiz federal à super-ministro, o agora cidadão comum Sérgio Moro está, pela primeira vez, ao alcance de muitos. A Procuradoria Geral da República, por meio do procurador-geral Augusto Aras, já deu o primeiro passo ao solicitar, ao STF, a abertura de inquérito para investigar Moro pelo suposto cometimento de crimes como falsidade ideológica, coação no curso do processo, advocacia administrativa, prevaricação e obstrução de justiça. O jogo está só começando.

Cabe aqui ressaltar que essa aproximação tem seus custos. O Centrão é crítico da política liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes. Assim, Bolsonaro pode se sentir obrigado a afastá-lo da pasta - ou até mesmo Guedes peça para sair, por falta de condições políticas de permanecer no cargo. Exatamente o mesmo que ocorreu com Moro.

Há ainda pressão sobre a ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Seu partido, o DEM, emite sinais claros de insatisfação com Bolsonaro. A situação pode degringolar muito em breve.

Em meio à pandemia, que causa estragos na saúde e na economia, uma crise política tensiona ainda mais o ambiente. Não há clima e nem desejo imediato de se afastar Bolsonaro. Mas o presidente precisará operar com mais habilidade. O jogo é complexo.

André Pereira César

Cientista Político

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