Um Jogo Complexo – Parte 3

Nos últimos dias, ficaram evidentes as mudanças na estratégia do Planalto. Após apontar suas armas para os governadores e o Congresso Nacional, o presidente Jair Bolsonaro abriu nova frente, dessa vez contra o Supremo Tribunal Federal. Os primeiros efeitos da manobra já se fazem sentir.

A Corte, de maneira quase inédita, reage de maneira firme. Medidas importantes do governo têm sido sequencialmente negadas. A partir da anulação da nomeação do novo superintendente-geral da Polícia Federal, Alexandre Ramagem, passando pela prorrogação da CPMI das Fake News e chegando até a determinação de que o ex-ministro Sérgio Moro deponha à mesma PF em um prazo de cinco dias, a sucessão de derrotas do governo saltou aos olhos. O front está armado.

O grande perdedor é o próprio Planalto. Bolsonaro e seus aliados diretos estão em plenas conversas com o Centrão e o quadro imediato pode afastar esse poderoso grupo parlamentar (cerca de duzentos deputados) da mesa de negociações. Os integrantes dessa frente suprapartidária naturalmente temeriam uma exposição à Suprema Corte.

Além disso, os movimentos de agora reforçam a percepção de que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ), estaria apostando em uma “solução jurídica” para a crise sem precisar se utilizar do instrumento do impeachment. Como se sabe, são mais de vinte os pedidos de abertura de processo contra o titular do Planalto nas mãos de Maia, que aliás, por determinação do ministro Celso de Mello do STF, tem o prazo de dez dias para analisar esses pedidos.

Nesse contexto, não há a mínima condição de negociação com o Congresso Nacional e o presidente se isola ainda mais. Bolsonaro se escora basicamente em seus 30% de apoiadores, mas isso pode ser pouco - a evolução da pandemia, com a mistura de perda de vidas e economia em frangalhos certamente corroerá essa sustentação.

Enfim, esse início de maio mostra um presidente enfraquecido e enraivecido, mais preocupado em atacar “inimigos” (reais ou imaginários) do que enfrentar a grave crise que o país enfrenta. Caso se mantenha no Planalto, Bolsonaro será praticamente um figurante - o poder, de fato, estará em outras mãos.

André Pereira César

Cientista Político

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