Um acordo a ser construído

Celebrado como grande vitória tão logo anunciado, após o encontro do G-20 em Kyoto, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia ainda é uma incógnita. Isso porque, há um longo caminho a ser percorrido até sua eventual implementação.

Apenas para relembrar, após o anúncio do acordo, o mundo político, setores produtivos, imprensa e boa parte da opinião pública se juntaram para comemorar aquilo que seria um êxito incontestável do governo de Jair Bolsonaro, se esquecendo que pelo menos outros quatro ex-presidentes já haviam trabalhado para implementação do entendimento a pelo menos duas décadas em termos, a princípio, mais favoráveis para o Mercosul, o que explica, em parte, a resistência da União Europeia em dar o seu aceite durante esses longos anos. O presidente Bolsonaro, é claro, obteve ganhos políticos naquele momento.

O que não se disse é que ainda há muito trabalho a ser feito até a conclusão do processo. O texto do acordo precisa ser ratificado pelo Executivo de todos os países integrantes dos dois blocos. Concluída essa etapa, os parlamentos receberão o documento para chancelar o entendimento. Coisa de alguns anos ainda, digamos.

No caso brasileiro, o maior risco está justamente no comportamento do presidente Bolsonaro. Involuntariamente, essa semana ele deu munição aos grupos contrários ao acordo. Alegando problemas de agenda, o chefe do Executivo cancelou, de última hora, reunião que teria com o chanceler da França, Jean-Yves Le Drian. Ao invés de receber o francês, Bolsonaro foi cortar o cabelo - e utilizando o Facebook, fez uma live do “evento”.

É evidente que o chanceler ficou extremamente irritado com o ocorrido. Importante frisar aqui que ele é considerado um dos braços direitos do presidente francês Emmanuel Macron - uma das principais e mais críticas vozes ao atual presidente brasileiro na União Europeia por conta de questões ambientais.

Especialistas consideram o ocorrido como um dos mais sem-razão da história da diplomacia nacional. A humilhação pública ao chanceler francês terá um preço - a França certamente diminuirá os passos em direção a uma aproximação com o governo brasileiro.

Para o bem do Bloco Sul Americano, o acordo Mercosul-União Europeia, mesmo com a dinâmica do fato novo criada quase diariamente pelo governo brasileiro, seguirá seu lento processo de consolidação. A postura de Bolsonaro, porém, como já dito, deverá contribuir para novos atrasos no tortuoso cronograma de negociações. A única certeza é que não será o atual governo quem celebrará a implementação do acordo.

André Pereira César

Cientista Político

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