Tempestade perfeita no horizonte

Todos sabiam que não seria fácil. Conforme registrado recentemente nesse espaço, o processo de negociação em torno do projeto de suplementação orçamentária e da proposta de reforma da Previdência demandaria uma capacidade de articulação ainda não apresentada pelo governo. Agora, um novo elemento se soma ao rol de obstáculos para o presidente Bolsonaro.

O vazamento de conversas entre procuradores e o então juiz e agora ministro da Justiça, Sérgio Moro, sobre a Lava Jato, trouxe à tona uma nova realidade para o já conflituado ambiente político do país. Antigos heróis podem se tornar vilões.

Mais ainda, a agenda do governo corre sério risco. Moro sempre foi tido como o lastro moral do governo Bolsonaro, e já havia quem o apontasse como pré-candidato à sucessão presidencial em 2022, o que o fez entrar recentemente no radar da família Bolsonaro. O quadro mudou radicalmente de figura.

Agora, no Congresso, fala-se em CPI da Lava Jato. A convocação de Moro é praticamente inevitável. No âmbito da Justiça, há pedido de abertura, no Conselho Nacional do Ministério Público-CNMP, de processo contra os procuradores envolvidos no caso, inclusive Deltan Dallagnol, o mais conhecido deles. O meio jurídico repercute a crise.

Voltando à agenda governista, as nuvens ganham consistência. O relatório da reforma da Previdência será apresentado somente na próxima quinta-feira e a votação do relatório do projeto de crédito suplementar na Comissão Mista de Orçamento marcada para amanhã (11 de junho), pode ser adiada.

Por falar em agenda, o Congresso Nacional está passando incólume, por ora, à crise. Nenhum parlamentar foi denunciado até o momento nos arquivos vazados e, além disso, o Executivo cai nas mãos do Legislativo. Indicativo disso é o fato de as principais lideranças congressuais terem mudado suas agendas nessa segunda-feira e estarem todas reunidas em Brasília nessa segunda-feira.

E o Centrão que era o fiel da balança, ganha mais destaque e força. Seus votos serão agora, mais do que nunca, imprescindíveis para aprovação dos projetos de interesse do cada vez mais enfraquecido governo de Jair Bolsonaro. O diálogo vai ter que acontecer. Em que bases, não se sabe.

O fato é que muito ainda está por vir. Falar sobre a amplitude das eventuais novas denúncias não passa de especulação. A “nova política” de Bolsonaro enfrenta sua primeira tempestade perfeita.

André Pereira César

Cientista Político

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