Tempestade no horizonte

A semana será decisiva para o mundo político em Brasília após as últimas declarações do presidente Jair Bolsonaro conclamando seus apoiadores a participar das manifestações do próximo dia 15. Toda ação tem uma reação, e o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal já se movimentam.

A recente fala do presidente, durante passagem por Roraima, serve apenas e tão somente para confirmar a percepção de muitos, de que ele tem pouco apreço pela democracia. Esse movimento de Bolsonaro fez uma primeira vítima, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM/AP), que dias antes havia se reunido com o titular do Planalto e foi o fiador de um acordo que poria fim à tensão entre os Poderes. Ao final, Alcolumbre ficou a ver navios.

O Parlamento tem em mãos instrumentos para uma primeira reação ao posicionamento do presidente. A agenda reformista do ministro da Economia, Paulo Guedes, pode ficar em xeque. Se já era difícil aprovar propostas como as PECs dos Fundos, Emergencial e do Pacto Federativo, a turbulência de agora piora ainda mais o quadro. Isso sem falar na reforma administrativa, que ainda sequer foi encaminhada pelo governo ao Congresso.

Quanto à reforma tributária, são duas as possibilidades. De um lado, os parlamentares simplesmente deixariam de lado a matéria, aguardando momento mais propício para apreciá-la. De outro, a discussão da proposta pode ganhar impulso imediato, dado que o governo ainda não tem posição sobre o tema. Nesse caso, se repetiria o ocorrido com a reforma da Previdência, que foi aprovada graças à ação das lideranças parlamentares, em especial o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM/RJ). Tudo dependerá do cálculo político dos deputados e senadores. Isso porque, ao final, já se sabe que quem receberá os louros, apesar de tudo, será Bolsonaro.

Igualmente os filhos do presidente, o senador Flávio e o deputado Eduardo, podem ver as ações contra eles avançar nos Conselhos de Ética das respectivas Casas. Essa hipótese não pode ser descartada.

Enfim, ao convocar a população para sair às ruas, Bolsonaro dobrou sua aposta. Em um momento em que a crise mundial gerada a partir da eclosão do novo corona vírus (COVID-19) atinge um ponto crítico e o Brasil registra crescimento pífio do PIB, a posição política/ideológica do presidente apenas piora o quadro geral. Uma tempestade pode estar se formando no horizonte, com efeitos danosos a todos.

André Pereira César
Cientista Político

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