Sucessão Presidencial: o sinuoso roteiro dos partidos

O processo de reacomodação das forças políticas visando as eleições de 2022, ora em curso, tem impacto direto sobre os partidos. As lideranças buscam espaço para que suas legendas tenham protagonismo na disputa do próximo ano. Essa movimentação está apenas no início.

A mobilidade dos partidos abarca todo o espectro ideológico do país. À esquerda, o PT, principal legenda, ainda busca reformular seu discurso para reconquistar o apoio de parcela do eleitorado. Antes disso, porém, os petistas já têm um nome para comandar as eleições vindouras - o ex-prefeito Fernando Haddad, que teve a pré-candidatura afiançada pelo ex-presidente Lula. Uma jogada de risco, para se dizer o mínimo.

A disposição do PT no lançamento de Haddad teve imediata repercussão em outras legendas da esquerda. Duas delas, PSOL e PCdoB, demonstraram insatisfação, pois consideram necessário, antes de tudo, estabelecer um projeto para somente então se discutir nomes. O PDT, por sua vez, tomou outro rumo - o partido recebeu de volta o ex-deputado Miro Teixeira, que terá a incumbência de comandar a campanha presidencial de Ciro Gomes. A palavra “união”, mais uma vez, parece fora do dicionário da esquerda.

No campo da centro-direita, a agitação é similar. Com as derrotas nas disputas para o comando da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, o MDB ensaia uma reformulação interna. No caso, o atual presidente, deputado Baleia Rossi, poderá ser destituído e, em seu lugar, um nome mais “consistente” assumiria o posto. Caso isso se confirme, os emedebistas sinalizarão o afastamento de duas importantes lideranças de oposição ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o governador paulista João Dória (PSDB) e o deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ).

No caso de Dória, o tucanato começa, de maneira discreta, a revisar suas apostas na candidatura para a presidência em 2022. O próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deixou isso claro em recente entrevista, citando alternativas como o governador gaúcho Eduardo Leite.

Já o DEM vive uma disputa interna que tem, por ora, o presidente nacional da agremiação, ACM Neto, como vencedor. Ele se aproximou do Planalto, jogou Rodrigo Maia para o corner e, simultaneamente, manteve negociações com outros grupos políticos. Tudo em aberto, sem selar alianças definitivas. O DEM está no jogo.

O Centrão vive sua lua de mel com Bolsonaro e, ao mesmo tempo, tenta se apresentar ao eleitorado como gestor responsável, via presidência da Câmara. Aos integrantes do bloco, o objetivo é claro e está sendo atingido - estar próximo do poder, sem enfrentar o desgaste de ocupar a cadeira de presidente da República.

É igualmente importante um olhar sobre nomes hoje sem filiação partidária. Aqui, dois destaques. De um lado, o ex-ministro Sérgio Moro, até pouco tempo apontado como uma opção à direita, enfrenta sucessivos desgastes e, aos poucos, vê minguarem suas chances de disputar a sucessão. Já Luciano Huck, ao contrário, cresce aos olhos dos partidos, do mercado e de formadores de opinião, e tem plena noção disso - artigo de sua autoria publicado recentemente no jornal Folha de São Paulo deixa clara sua disposição. Resta saber qual será seu partido.

Enfim, o momento é de definição de posições e de elaboração de propostas. Alguns nomes já estão postos à mesa, e outros a eles se somarão em breve. A sucessão presidencial já é uma realidade.

André Pereira César
Cientista Político

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