Sobre os desdobramentos do affair Bolsonaro – PSL

Na última quinta-feira, 10 de outubro, publicamos artigo no qual exploramos as questões referentes à crise vivida entre o presidente Jair Bolsonaro e seu partido, o PSL. De lá para cá, o quadro apenas se agravou. Os dois lados partiram para o confronto aberto e são cada vez mais remotas as chances de um entendimento mínimo.

Para começar, na sexta-feira, 11 de outubro, Bolsonaro e cerca de vinte parlamentares da agremiação assinaram documento solicitando auditoria externa nas contas do partido. O alvo, é claro, é o presidente do PSL, deputado Luciano Bivar (PE), com quem o titular do Planalto bateu de frente. Em resposta, o líder do partido na Câmara dos Deputados, Delegado Waldir (GO), cobrou transparência nas contas do governo, incluindo os notórios cartões corporativos - assunto delicado desde a implantação desse sistema, em 2001, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Mais ainda, pelo menos três deputados pró-Bolsonaro, Alê Silva (MG), Bibo Nunes (RS) e Carla Zambelli (SP) podem ser expulsos em breve. Outros nomes deverão se juntar a essa lista.

Além disso, o líder do PSL no Senado Federal, Major Olímpio (SP), partiu em definitivo para o ataque contra os filhos de Bolsonaro. Ele chamou o vereador Carlos de “moleque”, afirmou que o deputado Eduardo “conspira para minar o PSL” e pediu que o senador Flávio deixe o partido. Difícil imaginar uma conciliação entre as partes.

Assim, fica mais que evidente a fragilidade do partido, que carece de uma linha programática definida e conta com poucos nomes de peso em suas fileiras. Essa percepção de fragilidade é reforçada por um dado relevante - desde que Bolsonaro foi eleito, há um ano, 43 cidades elegeram os sucessores de prefeitos cassados pela Justiça, e o resultado das votações mostra como o PSL ainda tem a busca por capilaridade como grande desafio antes das disputas municipais de 2020. Foram apenas sete as cidades onde o partido do presidente lançou candidatura, tendo eleito prefeitos apenas em Pimenta Bueno (RO) e em Mirandópolis (SP). Muito pouco para uma legenda com as pretensões do PSL.

A preparação da agremiação para as disputas pelas prefeituras, a definição dos candidatos e principalmente a distribuição dos recursos partidários para as campanhas explicam em larga medida a crise em curso. Para Bolsonaro, o desempenho eleitoral em 2020 é crucial para ampliar a presença de aliados em municípios por todo o país, de olho em uma base que impulsione sua candidatura à reeleição em 2022.

A crise pode afetar seriamente o dia a dia do Planalto. Segunda maior bancada da Câmara, o partido é fundamental para o avanço da agenda governista, que já enfrenta dificuldades. Além disso, a distribuição de cargos nas duas Casas se dá proporcionalmente ao tamanho das bancadas, e uma eventual desidratação do PSL geraria perdas para os parlamentares.

Por fim, o acirramento do confronto trará danos consideráveis para o presidente da República. Sem um acordo, o mundo político, os mercados e a opinião pública em geral ficarão com a sensação de que Bolsonaro não é capaz de controlar minimamente seus aliados. O que dizer então de sua capacidade de comandar a Nação?

André Pereira César
Cientista Político

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