Sobre os desdobramentos do affair Bolsonaro-PSL – Parte 2

A briga entre o presidente Jair Bolsonaro e seu partido, o PSL, continua no centro das atenções. Novos fatos ocorreram nas últimas horas, em uma clara indicação de que a crise não está perto de seu final. Independentemente da solução, os dois lados saem perdendo, e os danos para o titular do Planalto não são desprezíveis.

O evento mais dramático da terça-feira, 15 de outubro, foi a ação da Polícia Federal contra o presidente do PSL, deputado Luciano Bivar (PE), que é o principal alvo dos ataques de Bolsonaro. Sabe-se que, em tese, uma operação desse porte necessita de dias para ser preparada, e aí levanta-se uma importante questão - o presidente da República estava previamente informado da ação da PF ou, pelo contrário, tudo se deu a toque de caixa, a partir da escalada da crise? Qualquer uma das opções lança suspeitas sobre o governo, tornando o quadro ainda mais nebuloso.

Outro pivô da briga é o líder da bancada na Câmara dos Deputados, Delegado Waldir (GO), e é no mínimo interessante olhar suas declarações mais recentes. Ele ironizou a ação da PF contra Bivar e chegou a afirmar que “só falta a busca na casa do Queiroz e do senador Flávio Bolsonaro (PSL/RJ)”. Ao abordar um tema tabu para o governo, o líder do PSL avançou um sinal perigoso, para o qual não há retorno.

Ainda sobre Delegado Waldir, ele confirmou a existência de uma divisão na bancada, com parlamentares pró e contra Bolsonaro. Não se sabe exatamente qual a força de cada lado, mas há uma tendência favorável ao grupo de Bivar porque controla a estrutura e as finanças do partido. Isso apenas reforça a percepção de que cabeças rolarão - pelo menos três deputados deverão ser expulsos muito em breve e até mesmo o líder do governo na Casa, Major Vitor Hugo (GO), foi afastado da Comissão Especial que analisa a previdência dos militares.

Para coroar a turbulenta terça-feira, o partido chegou a entrar em obstrução contra o Governo na votação de uma prosaica medida provisória no plenário da Casa. Ao posicionar-se ao lado da oposição, PT em especial, o PSL enviou um claro recado ao Planalto. A cúpula da agremiação não aceita mais a ingerência de Bolsonaro e seus filhos na condução da legenda.

Como afirmamos acima, atravessou-se um perigoso sinal, para o qual não há retorno. Caso vença a queda de braço e mantenha as rédeas sobre o PSL, Bolsonaro terá em mãos um partido à sua imagem e semelhança. Do contrário, ele sairá, levando consigo seu grupo de fiéis apoiadores. Só que, nesse caso, o partido vai exigir o mandato de quem se desfiliar. A sobrevivência política do bolsonarismo seria, então, a criação de uma nova legenda de extrema-direita.

Por fim, quem ganha com a crise em curso? Por ora, o Centrão pode ser apontado como o grande beneficiário. O grupo, composto por mais de duzentos parlamentares de partidos como PP, PL, DEM, PSD, Solidariedade e Republicanos, será ainda mais importante para o avanço da agenda legislativa do Planalto, em especial para a recém-anunciada reforma administrativa.

André Pereira César
Cientista Político

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