Senado Federal: implicações políticas da eleição de Rodrigo Pacheco

A exemplo do ocorrido na Câmara dos Deputados, não houve surpresas na disputa pela presidência do Senado Federal. O favorito, Rodrigo Pacheco (DEM/MG), apoiado por Davi Alcolumbre (DEM/AP) e contando com a simpatia do Planalto, recebeu 57 votos. Sua oponente, Simone Tebet (MDB/MS), em candidatura avulsa, teve 21 votos.

Em primeiro lugar, salta aos olhos o contraste entre a eleição de segunda-feira, 1º de fevereiro, e os eventos ocorridos há exatos dois anos. Naquela ocasião, a disputa sucessória registrou cenas de pugilato, algo até então inédito no Senado. Agora, imperou o entendimento.

O resultado final refletiu as negociações realizadas entre as forças políticas, negociações essas iniciadas a partir do segundo semestre de 2020. Impedido legalmente de disputar a recondução ao cargo, Alcolumbre buscou um nome que desse sequência à sua gestão. Aparentemente, encontrou.

Pacheco, o novo presidente, é tido por seus pares como pessoa aberta ao diálogo - o que já foi atestado quando ocupou a presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. A título de comparação, ele atua de maneira muito mais discreta que o deputado Arthur Lira (PP/AL). A diferença de estilo entre os dois deverá ficar clara no dia a dia.

A agenda reformista, apesar de urgente, precisará ser discutida mais a fundo, segundo o próprio Pacheco, em seu discurso de posse. Quanto à pauta de costumes, possivelmente não deverá ocupar espaço de destaque na Casa, assim como temas referentes ao lavajatismo (por sinal, o PT apoiou Pacheco exatamente pelo fato de o candidato não ser simpático aos encaminhamentos da Operação Lava Jato).

De imediato, assim como na Câmara, o combate à pandemia dominará os debates, ao lado do orçamento. Também será discutida a agenda econômica.

Antes de tudo, porém, o novo presidente precisará contornar uma crise que está em gestação. Segundo as informações correntes, Alcolumbre teria negociado a primeira vice-presidência da Casa simultaneamente com o PSD e o MDB. O mal-estar só foi resolvido no voto, e o senador Veneziano Vital do Rego (MDB/PB) venceu a disputa por 40 a 33. Os emedebistas, apesar da vitória, não ficaram satisfeitos com o movimento e prometem retaliar - já coletam assinaturas para instalar uma CPI para investigar os gastos do governo na pandemia e prometem barrar a ida de Alcolumbre para a CCJ. Dias de turbulência se desenham no Senado.

Enfim, mais do que Arthur Lira, a futura gestão de Rodrigo Pacheco, por seu estilo discreto, ainda é uma incógnita. Para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), trata-se de uma aposta ainda a ser conferida.

André Pereira César

Cientista Político

Comments are closed.