Populismo em tempos de eleição – Parte 2

No dia 9 de maio último publicamos nesse espaço artigo no qual explorávamos os impactos da crise econômica nas eleições - no caso, a questão em foco era a alta nos preços da energia elétrica. Passadas algumas semanas, a situação geral não mudou, pelo contrário, só piora, e o que se vê é um governo bastante preocupado com os efeitos da inflação sobre os humores do eleitorado.

Agora, o centro das atenções é o aumento dos preços em geral, em especial de produtos essenciais como combustíveis e alimentos (e também energia elétrica, que segue em pauta). A resiliência da inflação incomoda a todos, mas as soluções colocadas à mesa podem agravar o quadro a médio prazo.

O presidente Jair Bolsonaro (PL), é claro, é o maior preocupado e, desse modo, pressiona a todos os envolvidos no processo - diretoria da Petrobras, governadores, ministros e até mesmo donos de supermercados.

Ele está acompanhado do ministro da Economia, Paulo Guedes, que chegou a pedir uma espécie de “congelamento de preços”. Ecos do final dos anos oitenta, do malfadado Plano Cruzado e dos “fiscais do Sarney”, que chegavam a fechar estabelecimentos “em nome do povo brasileiro”.

O Congresso Nacional, capitaneado pelo bloco de apoio ao governo, entrou no pacote e está, às pressas e sem muita análise quanto aos reais impactos sociais e econômicos, auxiliando o quanto pode no populismo eleitoral de Bolsonaro. Deputados e senadores aprovaram, a toque de caixa, projetos que limitam ou retiram impostos dos cálculos de tarifas de energia e na formação de preços de combustíveis. A redução do ICMS se tornou um cavalo de batalha para o Planalto, que negociou compensações aos estados. Os efeitos gerais das medidas (caso ocorram), porém, são temporários e a conta poderá chegar já em 2023.

Na avaliação de economistas, o cerne do problema é que as propostas não atingem os custos de produção e as margens de vendas - em suma, o corte de tributos não afeta as questões estruturais. No caso da Petrobras, a política de preços atrelada ao mercado internacional serve como uma trava para as medidas. No jarguão popular, medida “só para inglês ver”.

Na outra ponta, a mais recente pesquisa FSB/Pactual, realizada nos dias 11 e 12 de junho, apresenta um quadro dramático para a população. Nada menos que 77% dos entrevistados afirmaram ter reduzido significativamente o consumo de determinados produtos nos últimos três meses por conta do aumento de preços - “refeições fora de casa”, “roupas” e “carne vermelha” são os itens mais citados. O levantamento mostra que todos os segmentos foram afetados, sem exceção. Não por acaso, o ex-presidente Lula (PT) segue liderando com folga a disputa sucessória.

O que se vê, portanto, é um velho jogo reprisado - soluções fáceis para problemas complexos. A tempestade segue no horizonte.

André Pereira César
Cientista Político

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