Política em tempo de polarização

Observadores da cena nacional acreditavam que, encerrado o processo eleitoral de 2018 e com a posse do presidente Jair Bolsonaro, o ambiente político retornaria em breve a um mínimo possível de normalidade. Não foi o que se viu. Ao contrário, nas últimas semanas a polarização, que não acabou, ganhou ainda mais força. 2019 chega ao fim com a mesma face do ano passado.

O marco inicial do recrudescimento da polarização foi a soltura do ex-presidente Lula. Desde que deixou a carceragem da Polícia Federal em Curitiba (PR), o petista não tem economizado nas críticas ao governo. Seus aliados, até então atuando com certa discrição, também subiram o tom.

Mas é do governo Bolsonaro, porém, a maior parcela de responsabilidade pela elevação dessa temperatura política. Exemplos de radicalização não faltam.

Para começar, a declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre o eventual retorno do AI-5 para conter manifestações populares acendeu um sinal de alerta forçando os presidentes do STF, da Câmara dos Deputados e do Senado Federal e demais setores da sociedade, a darem uma firme resposta ao czar da economia. A fala do ministro indica haver um viés cada vez mais autoritário no primeiro escalão do governo.

Também contribuíram para a piora do cenário as afirmações do novo presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Nascimento de Camargo. Entre outras coisas, ele disse que não há racismo no Brasil, defendeu o fim do feriado da Consciência Negra e definiu a escravidão como benéfica para os descendentes, pois “puderam deixar a África “.

Por fim, o secretário de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania, embaixador Fábio Mendes Marzano, afirmou que uma das principais mudanças implementadas pelo atual governo foi colocar a religião no processo de formulação de políticas públicas. Importante lembrar que o Estado é laico e, com essa colocação, o Itamaraty apenas se expõe e reforça a ideia, antes subentendida, de que as políticas públicas do atual governo de fato estão sendo formuladas em bases religiosas.

Voltando ao ex-presidente, a decisão do TRF-4, que aumentou a pena do petista no caso do sítio de Atibaia (SP), aumenta a irritação dos defensores de Lula e, ao mesmo tempo, agrada a setores bolsonaristas da opinião pública.

O ano chega ao fim. 2020, ao que tudo indica, continuará a assistir à escalada da polarização política. Pior para todos.

André Pereira César
Cientista Político

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